17 de Dez de 2009

a arte de bem ladrar

Problema
Uma mulher passa na rua e interrompe a caminhada ao avistar um cão, um cão grande.
Do outro lado da rua, uma criança com idade para andar sozinha no passeio vê também o cão.
Mulher e criança param de andar ao mesmo tempo.
Não se encontram no mesmo segmento de recta, não estão em paralelo.
Como ambos detiveram a sua marcha por causa do cão, e como não pararam na mesma linha perpendicular às suas caminhadas,
Onde estava o cão?

Nota
Utilize apenas as fórmulas aprendidas na lição n.º 7
todos os cálculos deverão ser apresentados.







Resposta, certa, de Albert Cossery:
Perante esta cena inusitada, Mokhtar aguardou calmamente o que se ia passar a seguir, estranhamente consciente de que este príncipe da elegância, perdido neste lugar, tinha para lhe transmitir uma mensagem da mais alta importância. Dir-se-ia que o portador da mensagem se apercebera desta expectativa e que estava pronto para lhe responder, pois, sem mais delongas, abandonou a sua pose descontraída, endireitou-se na cadeira, ergueu os olhos ao céu, e depois, com a determinação do cantor que entoa a ária que o celebrizou, pôs-se a ladrar com um tom implacável e obstinadamente sarcástico, parecendo assim exprimir a sua raiva para com os habitantes da casa em frente. Passado um momento, parou com os latidos e virou-se para Mokhtar, visivelmente satisfeito com a sua proeza.

o medo

Não consigo suportar a figuração, a representação de mim a escrever. É algo pavoroso, de extremo mau gosto, na ordem do sangue e das vísceras. A carne nega-se como o espírito, os dedos recusam-se como o pensamento. Ao mesmo tempo: simultaneidade insuportável da negação, da representação, da duplicação. Como multiplicar então? Só com a velocidade. Só na velocidade do pensamento imediato os dedos podem conduzir o cérebro pelos seus ágeis caminhos de ossos e pele. É no calor dos dedos que a mente se inscreve o mais livremente que sabe. Não ler. Não reler. Não agora. Já não.

15 de Dez de 2009

está frio agora do lado de fora dos teus olhos amora
e a neve a nevar sobre os alecrins gelados

13 de Dez de 2009

Uma estação inteira sem amor

O comboio parou numa estação
inteira sem amor
um homem saiu
do comboio sem ninguém
passou um tempo
algum
passou tanto tempo sem amor
um homem sem ninguém
uma estação inteira
meu amor
um grito de máquina
bruma de vapor
mala de pele intocada
nas luzes da estação inteira
sem cor
esse mesmo homem sem
ser homem sem
ser inteiro numa estação
sem ser homem
sem amor
sem homem ser
nessa estação
meu amor
até que um apito fisiológico
som sem dor
estridente nos olhos já sem cor
despertou a ausência
da presença inteira
sem sentidos e sem clamor
na desistência incerta do amor
numa estação deserta
de corpos abertos
ao amor

3 de Dez de 2009

Vacina

À janela
Um gato de trás
Por detrás
Branco o gato
Vacina
A tua vacina
Contra mim
Contra tudo
Injecta-a
Com gelo
Para ser fresca

sereias (reprise)

E as sirenes da polícia
e as sirenes dos bombeiros
e a sereia com cieiro
de tanta água beijar
E as sementes de desejo
de todos os ladrões em fuga
de todos os incêndios em brasa
de todos os doentes em fuga
da polícia
das ambulâncias
e dos bombeiros

Há dentro de mim
entre os olhos e a consciência
uma luva que te serve perfeitamente
Há dentro de mim um refúgio
para a tua mão
direita
de sereia

E as sirenes dos incêndios
e o cantar dos doentes
e o grito dos incêndios
desfaz-se
e mescla-se na tua mão

Tudo diante dos meus olhos

Vejo na tua mão
o fogo
a doença
o crime

Vejo na tua mão direita
de luva calçada
de sereia
as brasas
a dor
e a liberdade

fina como uma luva asséptica

27 de Nov de 2009

cozinhados

Viste o óleo da fritadeira?
Dourado.
Tinha farpas lá no fundo.
Para onde derramá-lo?
No lixo, no cano, na terra seca?
Fora do mundo? Em órbita?
Vi o óleo dourado.
Adormeço de febre.
Dourada como o óleo?
Como tu?
Por dentro ardo.
Os copos têm gotas rubras, traços, linhas que se escapam.
A toalha tem nódoas amarelas no imaculado branco, a espaços.
Em órbita.
A escrever, a escrever, sempre a escrever.
A planta é de exterior, agora.
Cresce melhor lá fora.
Não dá flor.
Cresce melhor se dormir.
Na órbita dos olhos há olheiras.
A máquina está cheia e já não lava, não leva.
Leve, o óleo em órbita ruma ao sol.
De ouro dorme.
Dura a testa quente.
Mole o céu.
Lava a minha memória do futuro preterido.
De azul dourado.

tropos

psiquiatria negra para mulher fauna
jovem guerreiro em ritual de iniciação
ave de rapina cocainada
serpente com penas montada em quetzacoalt azul
tentáculos de rã em cabeça de aranha
noite com dentes a amarrar dia semi-nu
casa de poemas alada com alface
psicanálise branca para homem morcego

19 de Nov de 2009

dilema equino

Assim, como se as letras escritas, ou, pelo menos, a inscrição das letras, à medida que vou escrevendo, me assustassem, como se me incomodassem, me impedissem de, livremente, escrever o que realmente quero expressar, livre, mente, assim me sinto perante elas acaso reflictam aquilo que escrevo. Se espelharem o que escrevo assim as sinto, estéreis. Se me mostrarem que estou a escrever e me criarem, desde logo, um duplo interpretante, assim me revejo: duplicado. Horror da representação imediata. Mulas híbridas despojadas de ascenção, prostradas na erva.

13 de Nov de 2009

a página do ódio

A página do ódio seco e da inveja nua, a incapacidade de congeminar a cena da vida dos outros. O excesso de humildade de quem não dá as cartas. De quem se cala para que os outros possam falar, escrever, mas nunca sequer os outros que há em si ou timidamente a viver fora de si. Esses, em série, são vítimas da naturalidade. Meus iguais.

construção de sombra e areia 3

video

12 de Nov de 2009

quelques «mots» pour vivre:

1
2
3
de la soupe
7
8
9
de l'eau
4
5
6
de l'air
0

construção de sombra e areia 2

Nada mais constrangedor do que a página nunca estar branca. Sempre ainda por escrever mas nunca já branca.

O segundo momento é configurado e potenciado também ele pelo tempo.

construção de sombra e areia 1

video

11 de Nov de 2009

ode visual

video

branco

um fio branco pousado diante de mim parecia estático.
quem o visse, como eu agora ainda o vejo, nele reconhecia apenas lisura e volume.
mas por dentro.
por dentro havia uma corrente de alta tensão.
circulação eléctrica que ligava dois pontos nevrálgicos, precisos, que necessitavam de um sentido comum.
eu apenas via o meio, entre dois, twilight: a brancura do cabo.
era madrugada e a luz do sol começava a azular.
a brancura do céu a afirmar-se.
as nuvens desapareciam. aos olhos de quem as visse dissipavam-se tão depressa como a corrente no interior do fio branco.
uma manhã iluminada pela corrente eléctrica sem terra. apenas ar e céu, alto.

microondas

Crio micronarrativas para provar que tenho algo para contar, enunciar, para dizer sem me implicar. Procuro outra coisa, outra maneira, a-perceptual, sem perceptivismo, sem personagens, sem vozes e outros que invadem, sem musas ou encarnações híbridas ou monstruosas de musas, bruxas, ventos, remoinhos que enrolam as folhas nas tardes arrefecidas de Outono, mortas. Matar as micronarrativas e dizer: afasta impele impede a tontura do rosto como uma vaca prenha de sangue, não de sémen. Urros de medo no silêncio da vida, a galga messiânica no congresso. Que medo? Que força tranquila perpassa esse medo que trago de mim comigo? Sem interrogação. Exclamo. Comigo. Derramado, leite, sémen, sangue. Visco inflacionado pela indexação dos barris de pólvora do teu corpo. Teu, mulher. Teu, criança. Teu, velho. Adulterar os corpos é o mote dos mortos. Se falassem como as vacas mugem no congresso. Gesso. A gesticulação é imaginária nas entranhas dos pavões lá no jardim. Às cores. Os leques tremem, estremecem, as pavoas ruborizadas consignam. Há ovos por toda a parte a esta hora. Nos casinos são kinder supresa, presa, tu, mulher, na roda cintilante à beira do tapete jurássico, sem erva, verde. Minar é como gostaria de escrever. Não para da mina extrair o minério mas para nos túneis minar o mistério e sem dó minar-me.

7 de Nov de 2009

do narrador sem órgãos

Há em mim janelas abertas para correntes de vento, insuflam teias presas aos estores, fios de uma aranha cega, à espera de vidas, signos e sinais; à espera de suspender na sua rede, animais, à espera de gritos ligados pelo meio, pela abertura do seu centro anómalo e descentrado*. Eternamente exposta de dentro para fora, a teia traz para dentro de si, no limiar da consciência tornada voz, uma frase feita de gritos atrozes. Tecem-se loucamente, como bruxos, como dementes. A aranha, sempre lenta, tece até cobrir totalmente a abertura da janela, até fechar a boca à casa aberta. Calam-se os gritos dentro de mim, fecham-se as frases dentro dos textos. Abre-se a porta.



* em movimento perpétuo e lento sobre a teia

do homem atlântico (revisit.)

chamei o homem atlântico
mas ele virou-me as costas
tornou-se um homem no trânsito
surdo cego e sem voz

gritei ao homem do trânsito
que não podia viver sem rosto
ser um vulto de fuga
uma face de desgosto
que não podia caminhar assim
nem olhar com olhos de morto

calei-me no rasto do homem pânico
ajoelhada na multidão dos seus ossos
nua e cega decomposta
podia ver estar morta e viva
arrancar-lhe os lábios pela saliva

6 de Nov de 2009

do homem atlântico (cont.)

perguntei ao homem atlântico
mas ele virou-me as costas
tornou-se um homem no trânsito
surdo cego e sem voz

gritei ao homem do trânsito
que não podia viver sem rosto
ser um vulto de fuga
uma face de esgueire
que não podia caminhar assim
nem olhar com olhos de morto

ainda assim sorri ao homem lânguido
na esperança de que ele sentisse
a hospitalidade imensa mesmo que não a visse
de mim sair incansável a perguntar
e eu calava-me a questionar
mulher inesgotável a silenciar
e corri de gritos fechados
para nas costas o apunhalar
de dedos chorosos e apertados
para no dorso mergulhar

do homem que atlântico já não era
do homem agora em maré vasa
oceano sem porto e sem vento
água suja levada pela corrente

5 de Nov de 2009

15 perguntas ao corpo

com quantos membros se faz um corpo?
serão necessários lençóis?
haverá corpo sem arte?
haverá carne que não doí?
com quantos corpos se faz amor?
haverá lençol sem dor?
haverá sangue que reparte as veias que se retêm?
haverá arte sem corpo?
serão necessários laços?
haverá corpo que repele?
músculos a pungir sem pele?
haverá cãibras sem coração?
espasmos sem as mãos?
de quantos corpos se desfaz um morto?
haverá arte sem corpo?

2 de Nov de 2009

esta irrepreensível persistência retiniana (reprise)

E mesmo assim insistir. Insisto e assisto. Sem direcção. Assistido insisto assim. Persisto, persigo e desisto, assistido e repetido. Assistente e persistente, insisto; desisto e assisto à desistência da minha ausente assistência. Socialmente inexistente. Felizmente.

son corps léger: intraduzível diziam?

O seu corpo ligeiro
será o fim do mundo?
é um erro
é uma delícia deslizante
entre os meus lábios
junto ao espelho
mas o outro pensava:
é apenas uma pomba a respirar
seja como for
lá onde estou
passa-se qualquer coisa
numa posição delimitada pela trovoada

Junto ao espelho é um erro
lá onde estou é apenas uma pomba
mas o outro pensava:
passa-se qualquer coisa
numa posição delimitada
deslizando entre os meus lábios
será o fim do mundo?
é uma delicia seja como for
o seu corpo ligeiro respira pela trovoada

Numa posição delimitada
junto ao espelho quem respira
o seu corpo ligeiro deslizando entre os meus lábios
será o fim do mundo?
mas o outro pensava: é uma delícia
passa-se qualquer coisa seja como for
pela trovoada é apenas uma pomba
lá onde estou é um erro

Será o fim do mundo que respira
o seu corpo ligeiro? Mas o outro pensava:
lá onde estou junto ao espelho
é uma delicia numa posição delimitada
seja como for é um erro
passa-se qualquer coisa pela trovoada
é apenas uma pomba
deslizando entre os meus lábios

É apenas uma pomba
numa posição delimitada
lá onde estou pela trovoada
mas o outro pensava:
quem respira junto ao espelho
será o fim do mundo?
seja como for é uma delícia
passa-se qualquer coisa
é um erro
deslizando entre os meus lábios
o seu corpo ligeiro

1 de Nov de 2009

The Living Currency

The unique possibility of expressing in another language the singularity of the textual being who claims to be translated is to open the way for an intuitive writing, guided by signs came from the body and transmitted by the skin. And sure, when the matter is Pierre Klosswski’s language, the skin is the deeper way to understand the sense of simulacra expressivity. I do not propose here to make a review of The Living Currency (La Monnaie Vivante) but a short note on the experience of translate the author, who is haunted by a complex system of ghosts, phantoms and simulacra, that generates an industrial production machine of desire tools for haunting, precisely, the living bodies that are the new currency. This multiplicity generates thus a single style, a voice that cannot be confounded, in despite of been composite. Maybe, only one expression for its multiple terms, phantasms, shows. Here’s the expression of the thought of a monomaniac: one univocal body of text claiming to be multiplied in other languages that could dress it like a new skin for an orgy of ghost’s ceremonial. This new skin, this new layer appended at the virgin text will be its living currency, at the same time the textual body who claimed to be translated and its own translation.

António Sérgio

tinha várias noites por passar acordado, muitas sozinho, quase todas com música, o som da frente, a xfm... o silêncio

29 de Out de 2009

o outro

A noite passa. Pela manhã, ouvem-se pancadas na porta. Desta vez, parece que vêm do exterior, as pancadas… Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. E acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Duas, quatro pancadas... Mas talvez seja um resto, um sonho, um pedaço de sonho, um eco da noite... esse outro teatro, essas pancadas do exterior. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Como então, procurando o seu pensamento, a sua personalidade, como quem procura um objecto perdido, se acaba por encontrar o seu próprio eu em vez de qualquer outro? Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou. Eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio: pilar da ponte de tédio que vai de mim para o outro. É então o ser em mim, o facto de que existo. Ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. Nem folha, nem homem, nada. Com certeza que não uma generalidade, nem uma simplicidade, mas uma hecceidade. Eu sou, mas sou também o outro. O outro do meu sangue e do meu nome. Mas eu não sou o outro. Sou sozinho. Sou mónada enquanto sou. Já não se é ninguém. Pode-se trocar tudo entre seres excepto o existir. É então o ser em mim, o facto de que existo. É pelo existir que sou sem portas nem janelas, Eu que, apesar de Rimbaud, não sou outro. Não se percebe o que dita a escolha e por que razão, entre os milhões de seres humanos que poderíamos ser, é àquele que éramos na véspera que acabamos por voltar. Ah, é a saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e sobressalta! Como gostaria que a minha vida se reduzisse a «biografemas», cuja distinção e mobilidade pudessem viajar fora de qualquer destino e ir tocar um incerto corpo futuro, votado à mesma dispersão; uma vida perfurada. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.

27 de Out de 2009

e um aperto interclavicular...

...Matilde

apenas isto:

era uma redonda cabeleira, aquela mesa.
uma redonda mesa daquelas com três pés que servem de plano de intercessão junto da transcendência [deve ser isto a imanência transcendental, afinal].
Pé de galo: a mesa.
levitar.
sob: seis pés a flutuarem, a subirem às pernas.

25 de Out de 2009

Acender a luz com uma faca

l'avez-vous déjà essayé?

o corpo inteiro menos o rosto

À porta de um sofá aceso, esperava por mim uma vermelha angústia sorridente.
– Caramba! Ainda cá estou?
O matizado sentimento feminino que me invadiu por fora acedeu liminarmente ao interior da almofada.
– Acesa?
Não queria crer.
Não podia. Pudera... estava nua. No rosto. Logo ali.
Nem sabendo já se era sofá, sopa, concha ou jaula, a porta aberta não dava para nada, não conseguia nem podia apartar ou aliar.
Sem pacto, iluminado, o sofá convidava para logo de seguida ocultar e, nesse duplo movimento, repetia o gesto do convite. O gosto pelo invite.
Vi apenas naquele sorriso um pouco angustiado um pranto a segregar, comovido, hospitalidade pura.
Vi-te. À porta.
– A porta!
– Vai bater!
Apenas o rosto estava nu; só que era mesmo, mesmo o rosto que estava nu. Outro rosto nu, outro, o mesmo.
Nunca percebi e não percebo ainda por que razão é o rosto que sempre deve estar nu.
– Ali não!
O sofá que lhe acocorou as pernas despiu-lhe, pela luz, e o som que entre todos agora chegava, tudo menos um.
O corpo inteiro menos o rosto.
Sorria intensamente o corpo de rosto vestido.
Nunca a beleza de um corpo estivera tão à (minha) vista.
– A porta!
Já não importa.

23 de Out de 2009

Para a Série da Transparência

Abro a porta.
Está tudo vazio.
De ambos os lados da porta, no interior, no lado de dentro, que não saberei descrever como «o lado de cá», apenas há paredes brancas.
Do lado que não saberei designar por «lado de lá», mais paredes brancas, apenas separadas pela brancura da madeira dos umbrais.
Mas que possibilidade haverá, para mim, que posso estar de um e do outro lado, interior e exterior, dentro e fora, na mente interna e externa, de encontrar uma moldura contrastante com a verticalidade branca?
Uma moldura com um retrato lá dentro, no seu interior, no seu espaço superficial interno, uma fotografia do teu rosto, ou do meu, ou dos rostos de ambos subsumidos num terceiro?
Nada. Está tudo vazio.
O quadro sem retratos e o retrato sem molduras, alvo, transparente.
Aleteia derramada como se fosse tinta de areia, só que de leite.
Até a porta aberta é branca.
Continua tudo vazio, uma almofada hipotética deixou esvoaçar uma pluma...
Fecho a porta. Fico do lado de fora, agora, tal como estava quando a abri.
No interior, fechado, estou fora de mim, assim.
De ambos os lados da mente, rente à parede, freto uma chave para zarpar pelos corredores oceânicos entre os quais ecoa um grito de Adamastor, só que agudo, muito agudo, para dissipar o nevoeiro.
Abro, por fim, o portão que vai de mim para o chão que piso, e fecho-o com a mão.
Estou fora, no lado vazio do interior.
Transparentemente.

22 de Out de 2009

em «selfless mode»

Arranquei agora.
Seguro de que nada de novo irá acontecer.
A minha invisibilidade está garantida na transparência-aleteia;
que mais poderia esperar?
Que mais poderia ele querer ao tornar-se assim transparente entre as pessoas, todas?
No meio da sala-revista?
Arranquei tudo o que me restava: memórias, ideias, sensações, impressões, inscrições, raspões, farrapos, trapos de pele desdobrados a cair dos bolsos.
Como não fazê-lo?
Como prosseguir com a alucinação dos olhos que só vêem dorsos?
Que só vêem de dentro para fora, perpetuando travessias da mente, dementes?
Aparição de um signo como se fosse sisne, símio capilarmente sombrio de irada risasa.
Macacada no salão, a atulhar-me o coração, a toldar-me as mãos que se tendem, nos tendões desfeitos pelo movimento, preciso, da abertura delas, as mãos.
Amam-te de mim para mim, na lonjura vazia de um estado em selfless mode.

o seu corpo ligeiro

Parei aqui

Je me suis arrêté là. Net. Et puis je me suis mis à regarder autour de moi, et alors je me suis vu.
Ce qui n’était pas étrange pour moi puisque me voir est un acte que j’aimais à pratiquer devant le miroir, mon visage. Mais là l’expérience était tout à fait différente, je dis expérience mais ç’aurait été mieux dit, expérimentation, puisque je me voyais tout entier, comme dans les récits des hallucinés qui se voient de dos. Je me voyais tout entier. Non seulement de dos, comme les hallucinés de la phénoménologie de la perception, mais aussi de bas, de haut et, pis ou mieux encore, du dedans, à travers le dehors.
Ce qui veut dire que j’était matière transparente, et je dis je, puisqu’il s’agissait bien de moi et non pas seulement de mon corpos, de mes os et organes, de ma peau, ma chair, il y avait aussi, en exposition à mes yeux, ma conscience, la matière grise de mon cerveau avec ses petites allumettes, il y avait mes idées qui fulguraient partout dans la salle.
Ce qui me paraissait le plus étonnant c’est que personne, à part moi, ne paraissait arriver à me regarder, à me voir. Tous les collaborateurs de la Revue étaient fixés sur la reproduction de leurs textes, de leurs dessins ou matériaux graphiques, couleurs, sonorités visuelles. Moi j’étais là en transparence, apparemment je ne le faisais que pour moi. Je me voyais, je le voyais, je te voyais, comme je me décris maintenant.

Et puis, brusquement, tout cessa. La musique, les fées de la soirée, les regards mâles du pouvoir culturel, un grand Stop pour la danse. Et l’homme en transparence que j’étais, la créature-aleteia qui était moi, était la seule, le Seul corps, sans organes définis, à continuer de tourner dans le cadre de ma vision.

Je m’attendais à ce que, à tout moment, je sortisse de la salle, je m’envolasse ou pis encore, je me dissolusse, je me m’éclatasse. Mais non. Rien de tel.
Tout simplement les os grinçaient du dehors à chaque petit mouvement que je voulais rendre imperceptible à la foule stoppée.
Comme un dandy sans corps, sans chapeau, sans auréole, comme une passante sans trottoir, comme une réminiscence sans saveur, sans son, sans sensation, j’étais là, droit devant moi. Plus seul que si j’eusse été sculpté en marbre au milieu d’une salle de musée vide, sous la lumière. Là, sans la lumière, sans le marbre, sans épaisseur, j’était ce qui va de moi à moi : un énorme vide qu’une seule liaison pouvait rendre visible. La vie sans les plis, sans raison, sans réflexion, sans transcendance, la vie immanente à la relation vide qui allait de moi à moi. Je le savais. Je savait bien que de moi à moi il n’y avait plus de Je intermédiaire. Il n’y avait dans la transparence qu’une seule ascèse : celle qui descend jusqu’en haut des montagnes, celle qui fait danser les corps qui ne se voient pas. Celle qui ne fait jamais Stop à la fête-magazine.
On était là.
Mais je n’ai plus de mains. Je n’ai plus de dos halluciné, je n’ai plus de toit, de mois, demain, je n’aurai plus de toi, plus de moi. Finalement, on arrive à soi, le moi du je, pour pouvoir dire qu’il n’y a plus seulement une dissolution – celle du sujet du discours – mais bel et bien celle de la conscience de soi que les gens du salon-magazine appellent le Self. Unself, selfless, voilà la condition de cet homme en transparence dans le flottement des jours qui lui volent ses nuits.
À toujours, en floraison.

15 de Out de 2009

o corpo arquipélago da mulher sem nome

a aflição das veias lavadas 2

A aflição do dia corria-lhe nas veias
como lava brilhante numa erupção insular em banho atlântico
A lava das veias irrompia-lhe nos dias atlânticos
correndo insular em banhos aflitos e sem brilho
As veias de lava corriam-lhe das ínsulas aflitas
como uma erupção atlântica no banho dos dias brilhantes
A erupção atlântica banhava-lhe os dias de lava
como veias brilhantes a correr sem ínsula e aflitas
As ínsulas dos dias aflitos banhavam-se na lava brilhante
como um corrimento atlântico a irromper-lhe nas veias
A lava dos dias brilhantes corria-lhe no atlântico
como uma erupção aflita num banho de veias insulares

a aflição das veias lavadas 1

Aflita, no correr dos dias, a brilhante erupção atlântica banhou-me as veias de lava insular

13 de Out de 2009

«passionalmente» ou uma tradução improvável

pas paspassa paixõ
vossos passos nã do nã do não domineis nã
vossos passos paixões vossos passos vos
vossos passos devo devorantes não do
não domineis os vossos ratos
pa vo ratos
não do devorantes não do não domineis
vossos ratos vossas rações vossos ratos ratios ne não
não domineis as vossas paixões rações vos
não domineis vos não vos nã do do
minai minai as vossas nações mi mais do
minai não do não mi não passo vossos ratos
vossas apaixonantes rações de ratos de passos
pas passa paixõ minais passo
não minais vossas paixões vos
vossos racionantes regalos de ratos devo
devorai-os devo dedo do domi
não domineis esse esse ante-gosto
de bom gosto de pas de passa de
pasi de pasigrafia grã fifia
grafia fia de fia
fifia fena fenaqiqi
fenaqisti coco
fenaquisticópio fifia
fofo fifi foto do do
dominai do foto mimei fifia
fotomicrografei vossos gostos
esses piolhos coreográficos fifia
dos vossos desgostos dos vossos desgastos não
isto não paixã paixão de ga
coco quistico ga os desgastos não
os passos paxiopas paixão
paixão apaixonada ne nada
ele é nado da ne
da nega ga da nega
da negação paixão gra esca
escarrei esca escarrei sobre as vossas nações esca
da neve ele é ele é nado
apaixonado nado ele é nado
a nado à raiva ele
nasceu à ne necronagem esca raiva ele
ele é nado da ne da nega
nega ga esca escarrai da ne
da ga paixã nega negação paixão
apaixonado nariz passionam eu
eu -te eu amo-te eu
me messo arremesso eu já te arremessai
eu amo-te passionalmo-te
amo-te eu eio recreio paixão amo
apaixonado ee em emer
emerger amar eu eu amo
emer emerger e e pas
paix paix eeee em
eme emersão paixão
apaixonado e eu
eu amo-te eu amo-te eu amo-te
passa paixã ó paixã
paixã ó minha gr
minha grãesca escarrai sobre as rações
minha grande minha grã minha te
minha te minha grã
minha grande minha te
minha terrível paixão apaixonada
eu a eu terrí terrível paixã eu
eu eu amo-te
eu amo-te eu -te eu
te amo amo amo eu amo-te
apaixonado do amo eu
te amo apaixonad
amo-te
passionalmente amante eu
amo-te eu amo-te apaixonadamente
-te te amo-te apaixonado do
amo-te apaixonado
eu amo-te apaixonadamente eu amo-te
amo-te apaixo apaixonadamente

para ler o texto integral em francês, aqui
para ouvir a voz de Ghérasim Luca a dizer o poema, aqui

9 de Out de 2009

reencontro





7 de Out de 2009

free RSS feed (última actualização)

Designada pela sigla H1ND (Hábito 1º elevado a N Definitivo), a nova vacina contra o vírus da vida já foi administrada a 90% da burguesia ocidental.

6 de Out de 2009

estranhas formas de vida

Laurie Anderson

na euritmia das manhãs há códigos perfurados para romper as águas. para furtar as vagas.
como lugares vagos. vagos lugares arejados do mundo.
há um fundo de verdade que bate. uma multiplicidade de vidas a ecoar em arritmia.
é um mundo que murmura memórias individuais aos ouvidos convencidos dos sujeitos constituídos.
assinados e identificados seres sujeitados.
iludidos na sua individualidade. iguais.
tão iguais.

no deserto da minha boca

lufada após lufada
uma falta de ar
um torno em lento e repetido movimento no esófago
a laringe comprimida

rotativo e repetido
o sufoco engendra uma vigia forçada
amordaçada

em bloco
lufada após lufada
em bloco

levada de ar na altitude rarefeita do cérebro que asfixia
a atitude impreparada do corpo que não respira
a pele que não transpira
e o esterno
e os ossos a comprimirem o cerco aos olhos
fechados como os lábios
como as narinas

pesado sono que inverte a latitude dos sonhos
em bloco
lufada após lufada
em bloco
a lonjura da alvorada

leve noite que dança ao ritmo do mar revolto
em torno
repetido nos músculos que ora contraem
ora libertam
ora apertam
ora segregam
apartam
a secura da seiva
da saliva que baba uma sede liquefeita
na noite preterida
imperfeita

em bloco
lufada após lufada
de boca aberta

30 de Set de 2009

da mútua mutação

seguir o modo da mútua mutação
para uma transformação emparelhada
puxar a mesma carroça na diferença da força que irriga os músculos
é debaixo das narinas que a densidade se concentra
a baba efectiva a diferença de temperatura entre o exterior dos corpos e o interior do esforço
patas
pernas
lombo
é toda uma multiplicidade talhada que se mantém acoplada e viva
em parelha acastanhada
e
na escuridão
sem cópula possível
amordaçada a liberdade puxa a carroça do sonho
dos seres que não se mentem

24 de Set de 2009

da coragem

Foucault não temia as rixas e estipulava que «não há coragem senão física»; a coragem é um corpo corajoso. O que nos ensina a rectificar as denominações. Não se explora o trabalho operário, explora-se o corpo; não se formam civis com a disciplina militar, adestram-se, habituam-se os corpos para ter poder sobres eles; o sistema carcerário aprisiona corpos.


Foucault
o Pensamento
a Pessoa
p. 146

Quando a homossexualidade é transgressão:

Ora, uma manhã, à hora do pequeno-almoço, acordo com uns sons provenientes da peça contígua, onde tilintavam pequenas colheres e conversavam alegremente duas vozes: a de Foucault e uma fresca voz feminina. Admirado, embaraçado, bato à porta, tusso, entro e avisto um casal a sair da cama; era Foucault com uma jovem beleza de rosto inteligente. Estavam vestidos da mesma maneira, ambos trajavam um sumptuoso quimono (ou antes, um yukata) que Foucault trouxera de Tóquio em dois exemplares. Sou intimado a sentar-me, desenrola-se uma amável conversa, e depois a desconhecida, que falava um francês sem sotaque, ausenta-se. Mal acabara de fechar a porta da entrada que Foucualt, orgulhoso como um pavão por esta sua transgressão, se volta para mim e diz: «Passámos a noite juntos. Beijei-a na boca!»

Foucault
o Pensamento
a Pessoa
p. 146

22 de Set de 2009

Foucault


A Vida e as Ideias em causa são as de Foucault.
O Texto é de Paul Veyne.
A Editora é a Texto & Grafia.
A Tradução minha.

21 de Set de 2009

boletim meteorológico II

bruma matinal a sul das ancas
afinal o outono amanheceu-lhe no ventre
ainda tão fértil
ainda tão quente
e a corrente de ar que me perpassa como se fosse vento de loucura
dentada cravada
molar
dor canícula
molecular
na mente

16 de Set de 2009

boletim meteorológico

afinal
ela sofria de um acentuado arrefecimento nocturno

10 de Set de 2009

por uma série de razões

o que seria se seriássemos as sereias
se em série as deitássemos na areia
se lhes déssemos regadores cheios de água com sal da ria
formosas seriam
seriadas as sereias
deitadas
ser uma explosão de água e escrever pelo ar, disseminando pelo, dispersando pelo, numa explosão molhada, ar, a água pintada, a tinta aguada


Não. Está demasiado leve, demasiado líquido. Precisa de um elemento térreo, para lhe dar estrutura, força e veracidade. Mais ou menos assim:


ser uma bomba de água e explodir no ar, disseminando, dispersando, em sucessivas rebentações, por dentro, nos meus pulmões, e tragar a água purificada, a tinta oxigenada, em venosas palpitações.


vês?

12 de Ago de 2009

Ontographie des soleils couchants

J’ai longtemps habité sous de vastes portiques que les soleils marins teignaient de mille feux comme des soleils couchants sur les grèves. Depuis longtemps je me ventais de posséder tous les paysages possibles: Les soleils mouillés de ces ciels brouillés. Les soleils couchants. Une aube affaiblie. Les champs. La mélancolie des soleils couchants.

10 de Ago de 2009

terra lisa

abro um território e sou nele nómada e movimento-me no limite das fronteiras inexistentes que sempre me traça por dentro quando sentado num camelo que em círculos soprados pela dança da loucura percorre a minha eterna destinerrância numa prodigiosa lentidão de que me aposso para poder pagar o veloz preço dos meus desejos

9 de Ago de 2009

biodiversidade vocabulária da anatomia

afinal existem lábios salgados
como existem lesmas marinhas
afinal
como se fosse do mar
há lábios sem cieiro
lesmas-sereia
segregadas nas veias
dos monstros retidos
nos castelos de areia
afinal
eu bem sabia
que um dia virias
para me dizer
e dirias
«és o meu mar
e estou de maré prenha
alta até à laringe
de direito cheia
plena de te ter
e de poder dizer»
dirias
se eu soubesse
terias dito se soubesse como era estar alta
na gravitação de uma onda circular
que não se espraia nem espalha
que unicamente empalha um par de lesmas
direita à praia
para sempre ter
sob os olhos embalsamado
o par acoplado
dos lábios do ser amado
«está no meu direito deitar-me a amar»
disseste
dirias se me não afligisse tanto ouvir
no fundo das conchas sempre vazias
como um tórax que não respira
uma surdez afogada
a tua voz alisada
por um mar calmo
mas sem água
nem vento
nem sal
somente
um céu
sobre as conchas vazias
longe
tão distante
minha aquática gestante
minha linha de vida
meu mar
meu direito de errar

7 de Ago de 2009

uma árvore de natal nas montanhas nocturnas do Japão

déjà-vu

capturar
das imagens-pirilampo
dos espaços luminosos
das ideias-arancu
retirar
dos tempos brilhantes
dos lugares irradiantes
das percepções-luzicu
arrancar
das impressões-vaga-lume
das zonas cintilantes
o pensamento-tu

6 de Ago de 2009

lábios-lesma

da lesma aos lábios, à mão

está uma lesma escura na berma da estrada
negra de alcatrão
ao lado o verde da erva
mais adiante a água em torrente apertada
pelo granito
cai o dia
ou a tarde
cai-me a noite
com os óculos
a lesma densa
ponto escuro intenso
no plano negro do chão
dança lenta
dança rente
ao cair da estrada
à beira da mão

não vejo senão o que sinto
no tactear dos sentimentos
desfocados nas sensações:
a mão

escura é a lesma
a inclinação tensa
o plano das lentes molhadas escuras
e não graduadas
é como o chão da lesma ensanguentada
o sangue é rubro como os teus lábios
que procuro nos dias aguados
à mão

26 de Jul de 2009

o que dizer que não seja curvilíneo? pois foi por esta retiniana persistência horizontal...

uma linha azul ficou impressa nos meus olhos
não no meu olhar
um traço ficou inscrito na minha retina
persistência unicamente minha
um rasgo abriu-me a íris
por incisão laminar de luz
algo que nunca supus
poder imprimir
saber traçar
ousar escrever
pelo inverso
o meu olhar

15 de Jul de 2009

Perdendo o fio à meada, à teia, as ontografias – como janelas abertas para correntes de vento de uma aranha sopradora, insufladora de vidas que, suspensas, se ligam pelo meio, pela abertura do seu centro anómalo e descentrado, exposto na exterioridade imanente a si –, no limiar da consciência tornada voz, escrita, texto, tecem-se loucamente.

como um funil

o teu covil

o meu perfil

quando o perfil avança
os olhos caem
desfazem-se
desfazem-se desfazendo-se no olhar de quem olha o perfil a avançar
a avançar que é como quem foge
é como se fugisse
de perfil para não enfrentar
na oblíqua para não se molhar
na chuva perpendicular do olhar frontal
o frontal olhar dos outros que olham os rostos que
de perfil em perfil
se perfilham na senda
no caminho
caminhando para o esquecimento

14 de Jul de 2009

Nunca um único eunuco nidificou no núcleo da nuca: nunca!

6 de Jul de 2009

Homens que são...

(poema de D. F., «Homens que são como lugares mal situados» dito por Fernando Alves a 9 de Junho de 2009.)
Para ouvir aqui

3 de Jul de 2009

isto

para viver um ser vivo tem de estar vivo e querer estar vivo, além de querer estar vivo, um ser vivo tem, para ser vivo, de viver independentemente de querer ou não viver uma dada vida. só assim, querendo, mesmo sem querer e independentemente de querer ou não querer viver, dado ser vivo, para estar vivo, como qualquer ser vivo, tem de ser um ser que vive, vivo, os seus quereres e não quereres em termos de viver ou não viver uma vida que se vive independentemente do querer. um ser vivo para viver tem de ser isto, vivo, independentemente de ser isto a viver ou de ter sido mais ou menos isto vivo. se viver sem ser isto, um ser vivo não existe.

29 de Jun de 2009

o homem atlântico*

Perguntei ao Homem Atlântico que a Marguerite um dia amou:
– Por que caminhas assim cabisbaixo, como quem vive cansado?
Ao que ele me respondeu sem tirar os olhos da recta curvilínea de um horizonte azul-cinza que já não traçava fronteira ao mar prateado mesclado na luz do sol nocturno de um céu madrugado:
– Por me amar em demasia, eu a mim, que sou oceano, os sentidos aprumados sempre a rigor sem rigorosamente por outros alguma coisa nutrir, por me sentir demasiadamente, eu a mim, caminho como quem vive e morro como quem mente.
Perguntei ao Homem Atlântico que a Marguerite uma noite sonhou:
– Por que andas assim cambaleante, como quem vive doente?
Ao que ele me respondeu sem tirar as mãos dos bolsos curvilíneos de umas calças azul-cinza que já não traçavam fronteira pelos contornos sobre o mar prateado mesclado na luz do sol nocturno de um céu madrugado:
– Por me amar, eu a mim, excessivamente ando como quem não tenta a vida que leva veloz ou lenta.
Perguntei ao Homem Atlântico que a Marguerite uma manhã chorou:
– Por que passeias assim sem rumo, como quem vive pela metade?
Ao que ele me respondeu sem tirar a limpo a minha pergunta que já não traçava fronteira entre ele eu e o mar prateado mesclado na luz do sol nocturno de um céu madrugado:
– Por me amar a mim, eu, cindo-me e não decido que caminho traçar, por que linha bifurcar, que antro adoptar por trilho de partilha, maltrapilho da alma é o meu amor que penhoro sem qualquer decoro para comigo que na lonjura da passada arrítmica, não cadenciada, me afoga pelos olhos o interior do corpo onde os sentidos e sentimentos de mim para mim jamais se aumentam por me amar assim, eu que só amo aquilo a que chamo meu: amor.
Perguntei ao Homem Atlântico e ele assim falou.

o demónio de Maxwell

no intervalo
há o vazio
há a passagem
há o pequeno demónio
das moléculas
que deixa passar quem
mais desejo tem
que deixa passar
os corpos voluptosos
excitados e quentes
ao invés
deixa sair os corpos
arrefecidos
esse
pequeno génio
é um gene
tão finito quanto nós
mas mais poderoso
na vontade
na vontade
de desejar uns e não outros
na vontade de desejar a diferença
de uns
na repetibilidade dos outros

26 de Jun de 2009

dos micro-momentos desencadeadores que encandeiam vidas

com tenazes e alicates
micro-momentos-micro-libertários
micro-cortam
micro-cerram
micro-arrancam
as correntes
as cadeias que
nos tornozelos
nos punhos
mega-limitam
mega-calam
mega-matam
os movimentos do teu corpo
que finalmente
nada
ao sabor da corrente
desencadeada

silêncio e voz com piano e violoncelo






«Tout ira bien» par Alex Beaupain, Kéthévane Davrichewy, Valentine Duteuil, Diastème, hier soir à Lisbonne

24 de Jun de 2009

porque é na aguarrás que o sal se desfaz

como o vórtice do cérebro quando se faz pedra
como o fundo dos olhos quando se perdem
como os rios de veias quando se golpeiam

é na aguarrás que o sal se desfaz
e é por ela que o faz

21 de Jun de 2009

porque é na terra quente e amarela que o granito ferve

como as furnas do corpo quando se faz ilha
como as formas do rosto quando se faz vil
como as horas de um morto quando vacila

é na terra quente que o granito ferve
e ferve por ela

entre tantos

sei que actualmente tenho mil rostos, todos derivados de um único plano, absolutamente múltiplo.

a praia. o vento. a estrada. as horas sem comer.
o mar. o café com cigarros. os silêncios. a falta.
diálogos. monólogos. a escrita. as teclas. a fala.
o pensamento. os sentimentos. as sensações.

são sabores.
e eu o silêncio que se faz entre eles.
a nudez sentimental é tão vaga flutuante e turva quanto a tua memória do meu rosto se torna multifacetada na inversa medida da minha memória do teu

20 de Jun de 2009

15 de Jun de 2009

litoralmente (reprise)

o Atlântico e as trezentas e cinquenta e seis vagas ornadas de espuma assinalam o surgimento das águas que nada – ou tão pouco – anunciava até então, senão as linhas da minha mão esquecida sob a lenta fluição do relógio de areia, sarei-a

7 de Jun de 2009

elegia

2 de Jun de 2009

sul

Enrolo-me. Enlaço-me. Abro a golpes de canivete caminhos na pele para o mais distante ponto de mim. O mais fundo lugar medular, onde é gerado sangue raptado pelas sucessivas menstruações, convocado como em oração festiva para jorrar das gengivas sem siso. Incisões nesta pele que repartem aluviões, linhas de água polarizadas para indicarem o eterno Sul.

30 de Mai de 2009

areia fora

Na praia sem água nem sol, sem noite, sem lua, areia fora.
Olhos sem cor, intensamente molhados de tanto olhar. Presa nua desabrigada sem ervas altas, sem riscas na pelagem. Gamo.
Vento sem som, volume sem superfície, a pele descarnada de sentimentos.
Mãos brancas e abertas traçadas, na palma, riscadas a negro claro no pano dérmico moreno, panorama epidérmico, epirama panodérmico.
Dar e dar e tornar a dar o que se não tem. Aumentar-se assim de desejo.
No mar sem água, deserto imerso de ligeiros pelos aloirados nas dobras do corpo cheio na maré vaza.
Memórias projectadas num futuro sem pretérito a pretexto da trama de duas sombras na terra clara.
Jogo de perguntas sem respostas evenciais. Evento nos lábios traçado a lápis-lazuli.
Evento boca na palavra em voz.
Para nunca menos do que isto. Para nunca mais repetir sem lembrar o regresso de amar.
Na serra larga sem fogo, sem rocha, sem pedra, sem chão. Elementos lacunares, hiatos narrativos em cachoeira.
O fluxo nocturno dos sonhos que caem a pique e não sabem morrer, papagaios pintados à mão para espantar os espíritos trovosos das nuvens densas, húmidas, papagaios de canaviais que vivem e não sabem poisar, sem terra não podem correr, sem pernas não podem morrer.
Água sem sal, doce como a nascente de uma vaga.

27 de Mai de 2009

a menos que um canto se lhe dobre para fazer seta, para indicar, flecha, o vector biunívoco, é quadrado gradeado que enclausura, a menos que um canto se lhe dobre para fazer seta, para indicar, flecha, o vector da multiplicidade

26 de Mai de 2009

A voz cala-se por agora. Vou dormir negro na União das latitudes, até um desejo vertical me despertar, branco e frio.

25 de Mai de 2009

Toilette / Twilight

Uma noite persiste em ruído de frigorífico na serra de Maio que descongela.
O vento condicionado sopra as ondas de um mar jacuzzi.
A bruma levanta-se no espelho e a praia a sul das tuas costas transpira.

Paisagens de Portugal (PP)

Para quem chega, como nós (tu e eu), vindos pela estrada do Norte, surge a nascente essa Terra Urbana Renovada, com o núcleo intitulado Igreja Nova Adventista do Cepticismo. Fica num morro, está vagamente traçado em quadrícula e o prosseguimento da sua urbanização deveria ter deixado ao visitante as vistas lavadas sobre a Igreja, coisa que nunca acontece... nunca. Já caminhando para poente, dirigimo-nos (eu e tu) para a Vila Velha da Fé, com as casinhas agarradas às abas dos três cerros, estendidos no sentido Norte-Sul. Entre o casario de duas das encostas, ergue-se, ainda, o velho Castelo da Vida Arruinada... à beira-muralha, como em todas as vilas do país (no teu e no meu), o Coração Central despeja por artérias enferrujadas um sangue amargo e já sem gás sobre mesas de plástico branco... há moscas como andorinhas.

Credo (cont.)

O catolicismo e a menina carbonizada no Sétimo Selo. E o medo de adormecer, com o rosto do Cristo na parede do quarto. Um rosto que, em espessura e densidade, gravidade, parecia sair da parede num cenário de David Lynch: e sofredor e doloroso e assustador para uma criança que tenta dormir e tem em mente a oração paterna «se vier a morte que me queira levar, ergue-se a cruz». Catolicismo e decoração não vão de par.

viagens topológicas: do Pacífico ao Índico

Como a Austrália é banhada por dois oceanos e como aqui cheguei pelo Pacífico vou seguir caminho pelo Índico”, li, escrevendo. Eis que, rumo a Madagáscar, me encontro a bordo de uma nau com estandarte ao vento e velas brancas e cheias – o navio vinha da Taprobana (um dos antigos nomes do Sri Lanka) e seguia para o Cabo da Boa Esperança – enfim, ia de Oriente para Ocidente, ou seja, do Oceano Índico para o Atlântico. Foi nesse mar das Índias que surgiu a Ilha dos Amores, emergida por Vénus, por ela própria aparelhada de dons de flora e de luxúria adornada. Surgiu qual Diana perante um Actéon-explorador, amparada por formosas ninfas e ninfetas, com seios como limões. “Trata-se de um paraíso terrestre para marinheiros corajosos e sedentos, e cansados e ofegantes”, anotei sem notar. Ilha de satisfação erótica e sexual. Terra do “amor indino” – Luís de Camões escreveu nas folhas que trago na minha mala-dobra mais coisas que eu próprio viria a testemunhar, sempre ao longe, pois que o explorador não pode ser participante, correndo o risco de nunca poder regressar e contar. “São cristalinos e singulares os passos das ninfas, com mil deleites não vulgares, sempre dispostas a quem desejar quanto delas os olhos cobiçarem”. Estas e outras linhas copiei, mas entre todas, apressei-me a decoranotar uma: “o desejo queima e não consome”. A Ilha namorada é fresca e bela; chega-se a terra firme por uma suave enseada, curva e quieta, cuja branca areia é adornada por conchas ruivas. Qualquer nauta que aqui se dirija (note-se que os lusitanos têm justo direito a um tratamento especial bem como a eternos favores) será recebido pela própria deusa do amor, Vénus. Um tal de Vasco da Gama, também conhecido por “claro Gama”, teve antes esse privilégio de estar “co’a bela Deusa”, li na minha cópia. É que “estes e outros Barões fazendo-se na terra bravos, virão lograr os gostos desta Ilha, e acharão estas Ninfas que glórias e honras são de árduas empresas”, pude anotar no meu bloco de apontamentos, copiando anexactamente os versos do tal Camões. Depois de satisfazer e exaltar as necessidades do corpo, com nobre mantimento, há que seguir caminho para o interior da ilha, através do árduo mato, rumo ao erguido cume. E foi esse caminho que tomei quando percebi que era chegado o final da minha destinerrância. Pois que é aqui que tudo se esclarece, que a topologia desta ficção encontra a revelação. Vivi-a como segue: “no erguido cume da Ilha dos Amores, num lugar em que o chão é um campo esmaltado de esmeraldas e rubis, um globo vem pelos ares, penetrado por um lume claríssimo, de modo que o seu centro é evidente e a sua superfície clara. Transcendência imanente. Superfície profunda, espessura imediata. Possui diversas orbes, diversos lugares, muitas órbitas e fronteiras, muitos paralelos e meridianos e um só centro, o do lugar em que se está, o da colocação num determinado momento, que em toda a parte começa e acaba.” E não é senão que a Vénus me deu, no cume erguido da Ilha dos Amores, uma réplica igualzinha à que dera ao “claro Gama”, tal como acabo de a descrever: “uma cópia, retrato do mundo, um globo-planisfério, uma topografia clonada do mundo mais-que-real, miniatura, em pequeno volume, para que os olhos o possam ver por inteiro, para que se saiba para onde ir e se conheça aquilo que se deseja.” Esta “grande máquina do Mundo”, como a escreveu Camões, etérea e elemental, permitiu-me regressar ao meu ponto de partida, à minha mecanosfera, ao meu planómetro, à máquina do universo de Vaz e Vasco. Mas são tantos, afinal, os acontecimentos literários que precisam de um lugar para existir. Um eis, algo que surge. Esse ponto singular, o lugar de toque, de contacto, de choque, acontece quando a assimptota toca na hipérbole – que “é quando a alma toca Deus”, escreveu um dia Victor Hugo. É, pois, de coordenadas virtuais que se compõem as ficções topológicas. Trata-se da actualização dessas relações virtuais inéditas, mas bem reais, e aptas a devolver à vida da terra a sua ligeireza, nem que seja à tona da superfície desta carta...

24 de Mai de 2009

"nos teus (olhos), o reflexo de um navio sem porto para aportar"

22 de Mai de 2009

litoralmente

o Atlântico e as trezentas e cinquenta e seis vagas ornadas de espuma assinalam o surgimento das águas que nada – ou tão pouco – anunciava até então, senão as linhas da minha mão esquecida sob a lenta fluição do relógio de areia, serrei-a

os teus olhos assinalam o surgimento de um navio que não chega

Homo pathos eros

crânio devastado

no movimento das ondas do mar passional
arrastam-se olhos pregados na crueza da luz

os sonhos nupciais de ascendentes miméticos
revelam pela emulsão da saliva
à luz vermelha da câmara clara das pálpebras cerradas
micro-terrores anestesiados pelo quotidiano

trepanação pela fronte que alarga a consciência
desejante e múltipla que se
escreve por associação de nucas perfumadas
no fruto matrimonial dos descendentes sazonais

carcaça inviolada

12 de Mai de 2009

Lágrimas de Excesso (fragmento)

Num contraforte intermitente encontrei-as como se fossem salpicos de água do mar na
amurada de um castelo de areia. Como se fossem provocadas pela tua ausência, pensei,
escrevendo. Penso enquanto vos escrevo. Escrevo para mim enquanto penso. Parece cada
vez mais complicado. É que enquanto escrevo leio aquilo que não cheguei a pensar pois
apenas o escrevi assim, de rompante, como quem fala. Não sei se eram duríades vindas
do norte encalhadas nos contrafortes do meu castelo de areia, mas julgo que não. Se
fossem duríades encalhadas teriam um sotaque bem vincado, mesmo reconhecível no
timbre de uma voz inebriante como essas que se faziam ouvir Como essas vozes.
Vociferar sobre as teclas é o que faço para que possam ler agora. Seriam lágrimas, seria
suor, seria sangue translúcido de maríades? Era por certo um rasto, uma marca, um
vestígio impresso na superfície lisa da areia na amuruda do castelo estampado de sereias.

11 de Mai de 2009

ontograma

eu
[...]
quando te escrevo assim de rompante, como faço agora
sinto que abuso
de ti, que me sirvo
de ti, que te uso
sem sequer abusar
sinto que abuso de todos os dias
que nem sequer violo
que uso todas as horas que não chego a gastar
[...]
sem uma consciência que aguente
há uma espécie de inconsciência consistente
que mente
que se mente
que me mente por dentro
[...]
eu

biografema

apetece-me estar contigo amanhã, na cinza dos dias, manhã de maio a sul do cabo
mas a consciência morde-me o estômago
diz-me, baixinho, «deves trabalhar, precisas de escrever, quanto mais viveres parcialmente e fragmentado, com paralelos, menos escreverás autenticamente»
eu ignoro-a mas ela insiste
bem sei que os paralelos são indizíveis.
lutei para não escrever estas linhas
mas rendo-me ao conforto da tua leitura
talvez amanhã acorde e tenha coragem para te dizer
«não posso, tenho um encontro com a minha escrita»
mas não acredito nela ao ponto de anular previamente algo que me será tão prazeroso
adio
não decido e, para não ter de decidir,
escrevo
pior ainda: escrevo-te
perdoa-me a insinceridade crua
sinceramente

ninguém é substituível

NINGUÉM É SUBSTITUÍVEL
ninguém é substituível

8 de Mai de 2009

a última estação

perdidos na estação, em busca de uma saída que não a óbvia que se lhe seguia, vento e pólen rodopiaram num vórtice de tempo até à fuga simples em linha recta pela boca do mundo, pelo ventre da cidade, pela extensão dos desertos que são os corpos da gente sem alma

7 de Mai de 2009

hipoteca das cores

24 de Abr de 2009

partilha de poder

tomar uma decisão como quem toma a pílula. decidir diariamente que o sexo, praticado ou não, não será fértil.
(em termo reprodutivos, entenda-se.)
tomar um copo como quem decide alterar o carácter. para soltar, para sarar, anestesiar numa interrupção, um quotidiano sóbrio. ou, pelo contrário, recuperar o ébrio quotidiano.
hodierno, hediondo, hedonista, tomar uma decisão como quem estabelece uma lista. prioridades, menoridades, afazeres, moleskines de cleópatras que calendarizam marco antónios.
tomar um esquecimento como quem decide, adiar uma tomada como quem apanha um choque, curtocircuitar as decisões para manter possíveis todas as potencialidades, todas as forças que tricotam, que multicotam os carácteres em permanente composição.
tomar, por fim, a decisão a-certada, que não certa, nem incerta, a-certada, descentrada, para que não concentre o sabor na boca que a toma, para que não se torne indigesta e venha a ser regurgitada.
tomar por tomar a decisão a-certada. toma a toma: um tomo dos 7 volumes da «Partilha do Poder».

23 de Abr de 2009

timberland

terra
meia-terra
minha terra
descalço
vi um ano
a desfiar-se
na cama

8 de Abr de 2009

Limpeza

Abdução sintética, como o nítido nulo diz que é, como diz o Vergílio que é, como quem diz Limpeza étnica, Lavagem técnica asséptica a fumar como uma azteca de colar apertado em redor do pescoço, em ré de dor, em dó maior, em pena máxima. Ai! a pirataria, que de noite e de dia, pratica abduções, aberrações de sabão que não para as mãos. Vasos a vaguearem, piratas sanguíneos, plaquetas de guerra. Como uma maia de mãos fechadas, de pulso cerrado, anel cortado, pratica aberrações do tipo comer anões. Ai os ais! Ai os ditos... e os desditos, detidos, delitos, delete.

6 de Abr de 2009

Emmanuel Lévinas e Óscar Wilde: só para ti

O CORPO LIVRE ou A ALMA EM CATIVEIRO

EL: (1)
- A relação com o futuro, a presença do futuro no presente parece ainda cumprir-se no face a face com outrem. A situação de face a face seria o próprio cumprimento do tempo; o pé-ante-pé do presente no futuro não é facto de um sujeito só, mas a relação intersubjectiva.

OW: (2)
- Não. Era impossível. Hora após hora, semana após semana, a pintura da tela envelheceria. Podia fugir à hediondez do pecado, mas estava condenada à fealdade dos anos. As faces tornar-se-iam flácidas e encovadas. No canto dos olhos baços formar-se-iam pés-de-galinha, dando-lhes um horrível aspecto. O cabelo perderia o brilho, a boca arquear-se-ia para cima ou para baixo, os lábios engrossariam ou ganhariam traços de mania, como costumava suceder às bocas dos velhos. Teria o pescoço enrugado, as mãos frias e cortadas de veias roxas, o corpo encurvado (…). O quadro tinha de ser escondido. Não tinha outro remédio

EL: (3)
- Mas a identidade não é só uma partida de si; é também um regresso a si. O presente consiste num regresso inevitável a si próprio. (…) O existente cuida de si. Esta maneira de cuidar de si - é a materialidade do sujeito. (…) A sua liberdade é imediatamente limitada pela sua responsabilidade. É o seu grande paradoxo: um ser livre não é já livre porque é responsável por si próprio.


Notas:
1 [Do elo que liga o presente ao futuro para que se possa falar de tempo. O presente é do corpo, é material, é dos alimentos e do desejo, o futuro é da morte. No entretanto está o quê?, que lugar-momento é esse que permite conter a esperança? Que elo é esse? É, precisamente, o outro, o face a face com o outro, a alteridade de outrem. Assim está explicado o tempo]
2 [O narrador sobre a tomada de consciência do tempo por parte de DG, com o corpo livre e a alma em cativeiro: a recusa da consciência do tempo]
3 [Mas o existente não está livre do seu existir, é responsável por si]

Fundação e Prémio

A ideia de lidar sistematicamente com processos de transformação evoluiu entre os anos 1990 e 2009. Então, a Fundação Ser-Texto acolheu um par de reuniões/ encontros que envolveram os membros da direcção, o board of trustees e os gestores de projectos dos diversos departamentos, de modo a atribuir um novo prémio eventual. Na modalidade de grande leitor, o prémio, no valor de mil *?=!, será sempre atribuído a quem facilitar uma melhor troca de boas práticas de leitura entre condutores de reformas textuais em Portugal Ocidental. A ideia, partilhar experiências visuais e perceptivas, consiste em divulgar, através do dito prémio, as mil *?=! do blogue da Fundação.
Mais informações, aqui:
http://luislima.tk/

31 de Mar de 2009

escrever

Como numa teia de teclas, escrever. Pressionar uma tecla, uma imagem de vida, e dela capturar a existência para poder grafar. Perceber depois, ao ler, que afinal a vida grafada gerou a expressão de um acontecimento noutro lugar da tela: o caos existe também na memória, na vizinhança, no habitat sensorial. A expressão, para não ser entrópica, afirma e liga contradições, vias não lineares: sem curvas, sem paragens, directamente afirma criando acontecimentos invividos mas perfeitamente reais.

natal

da gestante abandonada à parturiente reencontrada sobra uma cama aguada

se soubesse

se soubesse velejar viajaria por mar
(como uma louca interditada frente ao portão do sanatório: não zarpo)
se soubesse planar viajaria pelo ar
(como um céptico interditado à porta de uma igreja: não voo)
se soubesse como era viajaria por terra
(como um homem desmembrado interdito no ginásio: não movo)
se soubesse ao que sabes geraria bastardos
(como um amante marinheiro interditado por sereias: não oiço)

28 de Mar de 2009

Espinosa dizia

não desejamos uma coisa porque a consideramos boa; mas, ao contrário, julgamos que uma coisa é boa porque tendemos para ela

ao vento

esta noite marear a velas

o que é o poder?

É a capacidade de conduzir não fisicamente as condutas de outrem, fazê-las caminhar sem lhes pôr, com a mão, os pés e as pernas na posição adequada. É a coisa mais quotidiana e a mais bem partilhada; há poder na família, entre dois amantes, no escritório, no atelier e nas ruas de sentido único. Milhões de pequenos poderes formam a trama da sociedade da qual os indivíduos constituem o liço. Daí decorre que haja liberdade em toda a parte, porque há poder em todo o lado: constata-se que alguns respingam, enquanto outros se deixam estar.

26 de Mar de 2009

Marco Aurélio

«só um estóico poderia imaginar que, à força de se imbuir da ideia de que o amor não é mais do que a fricção de duas epidermes, se poderia tornar dono da libido»

24 de Mar de 2009

Foucault de Paul Veyne


A versão portuguesa da biografia de Michel Foucault, da autoria de Paul Veyne, está prestes a ser publicada (editora Texto & Grafia); talvez lá para Maio ou Junho. A tradução essa, está em fase de revisão final.
Deixo aqui um curto trecho retirado do primeiro capítulo do livro:

Tudo é singular na história universal:
o «discurso»


«Quando apareceu a História da Loucura, alguns historiadores dos mais bem postos (entre os quais o autor destas linhas) não viram de antemão o alcance do livro; Foucault mostrava simplesmente, pensava eu, que a concepção da loucura que tínhamos construído ao longo dos séculos havia variado muito; o que não nos ensinava nada; já o sabíamos, as realidades humanas traem uma contingência radical (é a conhecida «arbitrariedade cultural») ou são, pelo menos, diversas e variáveis – não há nem invariantes históricas, nem essências, nem objectos naturais. Os nossos antepassados desenvolveram estranhas ideias sobre a loucura, a sexualidade, o castigo ou o poder. Mas tudo se passava como se admitíssemos que esse tempo do erro estivesse obsoleto, que fazíamos melhor que os nossos avós e que conhecíamos a verdade em torno da qual eles tinham girado. «Este texto grego fala do amor de acordo com as concepções da época», dizíamos nós; mas a nossa ideia moderna do amor valia mais que a deles? Não ousaríamos pretendê-lo se essa questão escusada e inactual nos fosse colocada; mas pensaremos nela seriamente, filosoficamente? Foucault pensou seriamente nela.»

fotografia sem corpo

23 de Mar de 2009

o autor sem idade

De tal maneira era flagrante não lhe saber a idade que, conhecendo-o apenas pela voz (uma entrevista na rádio), sabia que era sexuado, e provavelmente adulto. A ausência dessa referência tornava absurda qualquer espécie de tentativa de classificação da sua literatura, como autor deste tempo, como autor em potência ou mestre em declínio. Idade do gelo, idade da pedra, idade em anos, em cristal, em sedimentos geológicos, em estratos e meta-estratos. Românico, autor-catedral adicionado de camada em camada, simples ou rebuscada, gótica ou barroca.
Autor romântico, autor surrealista, autor contemporâneo fragmentado e autor arquipélago. Nada disso tinha importância aos meus olhos que o não viam senão pela transfiguração do som que me entrava pelos ouvidos adentro em imagens, imagens mentais, imagens de pensamento oriundo do som, de um, unicamente um, dos sentidos: aquele que vibra no imo dos ouvidos e faz vibrar toda a pele do corpo.

rencontre

Entrevista, intervista, mal vista, apenas vista, invista mas não invisível, a mão de Keynes, não a de Keets, o Leviatã de Hobbes, não o de Homero, encontraram-se à beira rio, o Tejo, para falar de cinema. Como faria o Chico numa canção, a Adriana numa canção, o rio envolve sonoramente a economia flutuante, a poesia perturbante e a monstruosidade humana, na odisseia de um olhar turvo, como a água.

16 de Mar de 2009

sei que sempre preferiste as tripas à moda do corpo...

Silêncio na cidade (ao Francisco, ao filósofo, ao compositor e à sua amante)

Pai... O que é a imanência?
... Uma vida.
Esse silêncio deixa-me atordoado.

Ruído de motores, máquinas a ronronar e ritornelos. Território pós-humanizado, ultramoderno. A vida que escorre é de diesel. Vitalista, o território é combustível fóssil.

Queres saber mais que eu?
Não tendo para isso.
A cidade está vazia das coisas da alma.
O nosso amor não teve querida, as coisas boas da vida. E foi melhor, assim, para mim.

Lembras-me a selva. A floresta, território natural. O amor escandaloso, nu a correr como o Uakti, espírito do vento.
Era o hábito de caminhar pelas trevas. Tirar leite das pedras e lavar com elas as mãos até ao sangue, até ao sono dos séculos.
Caía chuva de penas, aves de carnaval no meu quarto, que não continham os lábios de sorriso e paixão.
Depois, filho, transbordando de amor, os rios casaram com os ventos e a minha pele secou como o sal do mar sobre o deserto dos séculos.

A multidão deixou a cidade silenciosa. Muda. Mudei-me.

Lembrava-me de alguns homens, de copos na mão, sempre vazios de líquido, cheios de ar como os aviões sem passageiros, cem rostos. Passagens pós-humanas.
Guardo no meu peito a tristeza de uma mulher. Só para saberes.

A magia da verdade inteira, dias inteiros, a pensar nas pessoas. Que conheci, que esqueço ou apenas relembro por partes, braços, olhares, perfumes-sorrisos.
Uma inveja dessa gente que vai em frente sem ter com quem contar.
Conto-te a ti, agora. Sentado na calçada, fora da estação de comboios, com calhaus baldios no território pós-humano. É triste o meu peito vazio do deus da ultra-modernidade.
Aquela mulher chorava, filho.

Como vais?
A correr para o futuro, num sono tranquilo. É do tempo esta pressa sem alma, só de trabalho, de telefone na mão, sem olhos 3G. Sem G3, sem tiros, sem África. É oriente o médio, os médios, o sinal de faróis, máximos, médios, fechados, adeus. Disse-me essa mulher.

Para quando pai?
Sonhar, eu sei.
Pai, ao cair da tarde, também hei de sonhar um sonho como os teus. Longe da minha alcofa, correr pai. Para perto dessa mulher?

Quero ter. Azul, o vestido, verás como eu vi. Saberás como o teu pai está sozinho de tanto amor sem o tal deus.
Transformei-me. Na corrida do beijo. Para o beijo.

Porquê sem fim? Beijar sem, como aquela mulher fazia? Pai?
Lavado. Já fiz mais que isso. Beijado. Desfraldado, filho. Pai cansado.

Sentir que a barba roça na pele sensível, que a mão aconchega o olhar reflectido no dos passageiros de comboios e aviões nas estações desterritorializadas. Dorme pai, como se estivesse aqui a mulher, fico acordado a sonhar por ti.

Mulher, essa, musa, mãe, ingrata, esquece quem a amou, a sua densa mata, alecrins, vinho tropical, mulata do Alentejo, que beijo, mulher essa que esquece quem a amou. O meu corpo executou-a, esqueceu-me de si.

Fui condenada, sem pena, a minha mão amputada, sangrada e com ela o anelar dedo, o da sagrada aliança. Pego agora nela, pai.
Sara. Sara. Serei indiferente com o esquecimento de si. Sim.
Só a cidade inimiga calada, sociedade de mudez. Escrava e hipócrita, dos ruídos das máquinas concretas, materiais. Finjo que falo contigo pai, filho.

Sou o espírito santificado de um deus apagado. Ultramoderno. Não me diz nada. Ninguém lhe reza: ora, pai, são filhos.
Oração do pai, filho, são santos.
Calados, mudos, como a cidade da mudez, pequenez. Como as minhas mãozinhas, pai? Filho. Santificado, procurado, olvidado, mudado, desfraldado, caído, gatinhado, crucificado. O plano, o campo, o território é imanente. Afinal, tu, filho, eu filho. Tu pai, por que serás espírito?
Como tudo aquilo que nas velas alumia o rosto dos que se lhe aproximam nas trevas das trianguladas desuniões eternas.

Fantasia espiritual, plano dos ritornelos e cantilenas infantis, pai, sem sentido ternário. Filho, carnal dessa mulher Sara que só fere, fera de ferimentos nunca sarados. Saraus de cantares e cantilenas, orações, ora são, pai, são, filho, esse espírito que da beatitude agita, actua os risos e só risos dos meninos dos papás.

Pai e filho:
É assim a cidade, que nos prende, a ultra-modernidade pós-humana fotografada, cromaticamente amputada ao real, amputada à grande vida transcendente, via sacra, ápia dolorosa, para nos individuar, singularmente, a cores e sobre papel brilhante.
Só o pai enraíza, Sara para Isa. Bel’ a filha do espírito. Tua irmã, tua mãe, minha filha, minha irmã, mãe.

E o nome da minha carne?
Sara.
O nome da tua cara?
Francisco.
Pai?
Filho.

Pai e filho:
Espírito tanto.
Para Sarar a terra. Essa mulher.

sem

Um arquipélago sem ilhas, um corpo sem órgãos vagueia num mar sem sal. É uma mulher sem vida que parece segurar no leme do navio sem quilha. Sob um céu sem cor, os meus olhos sem ver localizam os dela. Numa rota sem norte, o corpo sem órgãos vem ao meu sem mim, mergulhando-me assim nas águas sem líquido dos lábios sem rubro da mulher sem vida. Tocamo-nos sem pele: um suspiro insufla pulmões ao corpo e um coração bate bombeando o sangue nos lábios da mulher que viva me faz ver a mim que sou eu aos olhos que são meus um trilho rasgado pelo navio blindado as ilhas do arquipélago dourado sob o céu azul sobre o mar salgado.

14 de Mar de 2009

camadas: paisagem simples (2)

dados reais

São os dedos
os teus pequenos dedos cerrados
que se passeiam sobre o teclado
Afundam-se em tipos
deslizam sobre teclas moles
teclas-mola

São os dedos
Direitos a mim
que apontam a minha ausência
Desenham contornos no ar
Pintam cores olhadas
de aguarelas molhadas

São os dedos
dados reais
dedos-dedal
que apontam afinal
esses dedos banais
para as teclas normais
do medo virtual

13 de Mar de 2009

mais ágeis que a paisagem: as leoas

profilaxia das cores

diz-me como se tinge um rio
como se rasga uma planície
como se pintam as montanhas
se de neve
se de ocre
se de verde
se de frio
se de noite
se se deve
pintá-las ou não

roubadores de alma

Hoje presenciei um assalto, ou a sua indiciação. Noite, frente ao terraço. Dois homens carregavam caixotes, quais sombras pelo palmeiral, deambulando atrás da noite, depressa depressa.
Uma mulher esperava-os no Volkswagen branco. Abriu a mala onde eles depressa depressa colocaram os caixotes.
Sentou-se, ela, na parte de trás do carro. Eles fecharam depressa depressa as portas sobre si na dianteira do Golf.
Olhei-os. Olharam-me. Saíram depressa depressa com as luzes apagadas.
Ficou escuro. Lá dentro, nos caixotes, levavam fé.

as flores, antes da Primavera, guardam-se em vasos

o torno da mudança

Se construirmos um índice classificativo que permita um tratamento analítico e comparativo das principais sensações, perversões, emoções, desejos; uma lista não exaustiva das pulsões, pulsações, corrupções e invejas; um rol numérico para as feridas, as úlceras, o cieiro dos órgãos; se construirmos juntos esse índice que nos devora, indexaremos numa combinação estática, numa estatística bata, uma farda sem táctica, os procedimentos de um corpo que demora.
Se o não fizermos, que é o que sempre fazemos, accionada estará a alavanca do torno, a mecânica da roda, a engrenagem do sono, a linha que nos morde, a cadeia que nos monta, a noite que decompõe, dia após dia, uma existência que propõe indexar a azia.

12 de Mar de 2009

N.º 101, Estúdio Raposa

Para quem ainda não conhece o Estúdio Raposa, um estúdio de rádio online, com um enorme repertório na área da literatura portuguesa contemporânea (incluindo encantadores contos tradicionais portugueses, que fazem as minhas delícias) eis o endereço: http://www.estudioraposa.com/
Não sendo eu menos egoísta do que o comum dos mortais, indico o caminho para uma selecção de alguns poemas com o número 101, lidos e sonorizados por Luís Gaspar:
http://www.estudioraposa.com/index.php/11/03/2009/lugar-101-luis-lima/
ou então, simplesmente: AQUI

Obrigado ao Luís e longa vida ao Estúdio.

10 de Mar de 2009

o preço do silêncio

– o que estás a fazer?
– estou a contar (abanando silenciosamente a cabeça, a mulher).
– por que o fazes tantas vezes, e em silêncio?
– para ver se continua a sobrar (a mulher, sem levantar os olhos das contas que silenciosamente contava quando abanou a cabeça).
– o que esperas que sobre?
– um pouco de mim, quantitativamente (a mulher, num tom de voz ligeiramente alterado pelas sucessivas interrupções, sempre sem levantar os olhos das contas que silenciosamente contava quando abanara a cabeça).
– para quê, para quem?
– para poder continuar a contar, para mim, para o meu mundo (perdida, a mulher, de olhar cristalizado, depois de ter replicado num tom de voz ligeiramente alterado pelas sucessivas interrupções, sempre sem levantar os olhos das contas que silenciosamente contava quando abanara a cabeça).
– e qualitativamente?
- perdi-me, vou recomeçar (fechando os olhos, como quem procura a fé, calou-se, a mulher que, perdida, dissera, de olhar cristalizado, depois de ter replicado num tom de voz ligeiramente alterado pelas sucessivas interrupções, sempre sem levantar os olhos das contas que silenciosamente contava quando havia abanado a cabeça).
– perdi-te, queres continuar? (um homem)

9 de Mar de 2009

Esta noite a lua...

credo

Aqui agenciam-se forças, as palavras não são já decorrentes de um exercício de memória ou de respigação de leituras prévias e conhecimentos acumulados. Trata-se de intuição, da carne das palavras, no sentido esquizofrénico do termo, trata-se do sentido profundo de cada expressão, trata-se, enfim, da vitalidade do termo expresso, do contínuo que o agita, da corrente que o perpassa... o que, se nos levar a Pasolini e Artaud, se nos conduzir a Lars van Trier ou a Duns Escoto (...)

[como um caleidoscópio (Proust-aranha) de virtualidades em actualização, melhor do que ideias memorizadas em esbatimento cujas pontas emergentes brilham na rede (na teia) neuronal, fazendo surgir esse caleidoscópio de expressões lidas (sinais ou signos), retidas, sabidas, ou mais ainda, intuídas]

(...) resulta em:

Cruz, carne, mulher, tímpanos e gritos, túmulo onde nasce o movimento do corpo, as pernas que se acocoram, o grito novamente.

uma manada heterogénea e bem real

escritaorosto (reprise)

A expressão, os traços, o movimento, as escolhas do piscar de olhos, a orientação dos músculos em redor dos lábios, as escritas do rosto no olhar para baixo ou para cima ao mesmo tempo mais devagar ou com intensidade crescente se é crescente e decrescente se não se aumenta.
Para fora ou para si, para dentro ou para si. O rosto escreve-se. É mesmo o próprio que o faz, fazendo a escrita, fazendo-se dela, desfazendo-se e traçando-se, escrevendo.
Como é bonita
do rosto a fazer-se
a escrita.

6 de Mar de 2009

na selva dos dias

o meu pai foi para a caça. a minha mãe ficou a rezar. eu fui buscar água à fonte para as lágrimas não secarem. tive medo dos ogres das moiras e das cucas. tive frio nas mãos que não secaram. voltei para casa de água frio. sem sonhos, embalado, a cantar.

Portugal Reencontrado (desfecho)

Num tempo ausente, em que a mente, a terra e a memória não se sabiam já unidas, e como quem não quer a coisa, a coisa acabou mesmo por surgir. Revelar-se. Sozinha e tão a sós. A coisa era. Estava ali. Ou antes, tornava-se, retornava-se, emigrava-se. Estava-se mesmo a ser, sendo. Não era já a mesma. Não era ainda aquilo em que se iria tornar à medida que se ia tornando, devindo. Intempestivamente, entrava em erupção para explodir baixinho, devagarinho, para explodir para dentro. Não. Não implodia. Explodia para dentro baixinho. Com um pouco de vergonha até. Tinha um certo medo de existir. Um quase terror, mas sempre micro-terror... Ou então, por vezes, implodia para fora suavemente. Suave, sim, era o adjectivo que melhor qualificava o seu modo de existência – desistência. Suave mas sem qualquer delicadeza. Torpeza. Andava por ali, à beira-mar com a Europa posta nos cotovelos. E o seu território, como uma pele, a prolongar-lhe o corpo para além dos seus contornos, urdia-se através dos indivíduos, dos seus indivíduos, chamados portugueses. E agora lá está ele. A fitar com olhar esfíngico e fatal, o Ocidente, futuro do seu oriental passado, acidental. E o rosto com que fita é Portugal. É pois chegada a hora do nevoeiro, onde os reencontros se fazem no tempo, com a perda amarga da voz e onde a terra pisada se faz país reencontrado. É a chegada ao aeroporto de uma ilha onde Portugal se revela continente mas já sem conteúdo ou cujo conteúdo se encontra ainda por encontrar. Talvez no voo de um cisne.

5 de Mar de 2009

GRAFOS COMO COBRAS (reprise)

Se soubesses que olhar é como estar sentado entre duas esponjas de literatura

4 de Mar de 2009

linguagem animal-jaula

Na casa, dentro da casa, senti. Sem ti na casa dentro da casa senti um fechamento sem chamamento, sem chama, fechado, um fecho molhado apesar de preservado. É um barulho, o ruído, a trepidação sonora da água, em chuva, do lado de fora da janela, no exterior, externo, terno ruído da chuva que abusa do meu fechamento, ano após ano, o tempo de uma chuvada.

2 de Mar de 2009

Um jogo, em parte, à parte

Iª partida (a linha)
Num jogo. A água do rio caía para fora dos teus olhos. A terra era desigual nas margens. Depois a perda e a vitória, rotativas, implacáveis, fizeram-me por fim ver. A meio do jogo. No meio de um olhar. Uma baleia saía das águas escuras, não sabia mergulhar, a barbatana gigante parecia um par de asas... queria voar. Como a mente faz com os pensamentos que não se concretizam, as memórias que não foram vividas, os lábios sucessivamente humedecidos que não param de secar. Como num jogo de saliva entre duas camadas de papel, no lusco-fusco da cola, um origami epidérmico, onde o rio, os olhares, a baleia, as memórias, as asas, os lábios e os pensamentos dobrados constituem o plano de uma vida, de um dia, de um metro cúbico, um vinco.

II ª partida (o ponto)
Num jogo, a água do rio caía para fora dos teus olhos. Nas margens, a terra era desigual. A perda, depois, e a vitória, rotativas e implacáveis, fizeram-me por fim ver: a meio do jogo, no meio de um olhar, uma baleia a sair das águas escuras; sem saber mergulhar, a barbatana gigante como um par de asas... a querer voar. Assim fazem os pensamentos com a mente que não se concretiza, assim faz a memória com as vidas que não existiram: lábios sucessivamente humedecidos que não param de secar. Como num jogo de saliva entre duas camadas de papel, no lusco-fusco da cola, há um origami epidérmico, onde o rio, os olhares, a baleia, as memórias, as asas, os lábios e os pensamentos dobrados constituem o pano de uma jangada a romper-se, a sumir-se no horizonte longínquo
de um vinco.

28 de Jan de 2009

Grau Zero do Corpo

A elevação da temperatura da minha alma deveu-se à conjunção das deusas das duas temporalidades convexas. É sempre pelas linhas de água mais meridionais que o advento é feminino, como a febre, a vida, a fala.

22 de Jan de 2009

depois do gelo, a noite

20 de Jan de 2009

Amos Oz e os Tindersticks

Um livro de feiticeiro, Oz, o judeu, na mala às costas; enrolado no cachecol o escritor embalado pela música e um copo de vinho de Bordeaux. O coro das ovelhas imaginárias a fazer brilhar os olhos ao vento, no recanto quente que não é alma mas quarto de hotel. Boubar, o árabe. Entre Saint-Germain e Saint-Michel, nos grandes boulevards soprados por um vento gelado, «Boobar» nos ouvidos a vibrar. Música de vida, banda sonora navegável ao largo de Montmartre, da Place Clichy, de Neuilly, os boulevards a inaugurarem uma memória nova. Não se sabe, não importa se fora cão, marido ou futura paixão: ler Oz, ouvir «Boobar», únicas estrelas de um céu escuro de tempos a tempos estriado pela vaga luz da torre invisível.

17 de Jan de 2009

Joyce, outra vez

Na tua boca, como um molusco, ouso ser a língua que promete saber nadar.

Era uma vez acima e uma vez por... abaixo

Era uma vez um cavalo a cair e um homem, em cima, a enlouquecer. Era uma vez uma mulher a morrer, uma criança, por baixo, a sorrir. Era uma vez um medo do anoitecer, o sol, por cima a luzir. Era uma vez um mar a secar, uma pedra, por baixo, a chorar. Era uma vez uma música de trotear, uma nota por cima a voar. Era uma vez um escritor a copiar, uma voz por baixo a ditar.

16 de Jan de 2009

sem texto

Por vezes o mundo sufoca-nos e temos de inscrever, também no mundo, o nome, as palavras que dizem aquilo que nele, no mundo, nos sufoca.
É claro que, ao confessar-te tudo o que está por detrás das palavras escritas, elas perdem o seu mistério e, por conseguinte, o seu encanto, e a tua imaginação deixa de ter margem para, também ela, produzir.

14 de Jan de 2009

crise de vers

tu é que sabias Stéphane, tu é que sabias

uma guerra

Aquelas crianças que vi, vi-as fotografadas mas já sem vida. Eram imagens de guerra, da guerra, de uma guerra. Banalmente deveria tê-las olhado, quase sem vê-las, deixá-las invistas. Provavelmente o terei feito. Pois não as consigo esquecer. Terão ficado inscritas em mim como uma impressão cega, táctil, esquecida mas presente. É por ter sido esquecida que se preservou tão fresca, inteira,. Não pensei nelas. Foi por não pensar nelas, que as imagens se me tornaram presentes. Só viveram comigo, em mim, por não ter mais pensado nelas, até agora. Por isso é agora que tenho de expô-las, na sua nudez, na sua frescura, na sua pureza inicial. Pois à medida que nelas pensar, que as invocar, gastar-se-ão, usar-se-ão, banalizar-se-ão. É nessa banalidade que vive o pensamento quotidiano, a razão habitual, o mundo socializado, a humanidade. O ser de cada vida, a sua individuação deverá, para ser actualizado, arrancado cristalizado da sua onda virtual, ser despertado por um acontecimento. As crianças estavam mortas, foi uma guerra que as matou. Mas o que é uma guerra? A vontade banalizada, o sem-vontade, o vazio quotidianizado de ver guerras, de vê-las mas não vivê-las. Esquecê-las antes de tê-las conhecido, nem sequer para elas ter olhado, submetidas ao hermético ocaso de uma vida que se não afirma.

5 de Jan de 2009

Jarro de Sangria

do vinho que a sangria tem e do sangue também

22 de Dez de 2008

QUADRATURA PARA O INVERNO : ONTOGRAFIA

18 de Dez de 2008

ONTOGRAFIA-POSTAL

Ontografar
consiste no acto de ligar
convenientemente um
excerto a outro excerto
para produzir uma nova
composição. Sempre
que há expressão gráfica
de um ser e não de um
responsável imediatamente
identificável, um escritor,
essa expressão é uma
ontografia: é a escrita
de uma vida e não de um
sujeito constituído como
autor. Chamar-se-á a esse
compositor de grafias que
procede unicamente por
extractos de frases
arrancados a um corpo
textual aberto ao mundo,
ontógrafo.

6 de Dez de 2008

a rosa dos meus ventos

Sou arquipélago com várias ilhas que se não podem cruzar
Só cruzará as ilhas o navio que me atravessar
em movimento
um navio cruzador que
de ilha em ilha
navio cruzador
cruzar as ilhas interiores que em mim traçar

É o meu pensamento sudoeste
o teu nordeste
o meu desnorte
a tua sorte
e a de quem souber nas águas superficiais
navegar
no meu arquipélago imanente
quem desnortear a Rosa dos meus ventos

E no meio, na média da mediana
na zona mais turva
onde os paralelos são meridianos
despontam serranias
são serras de azia
amargura nascida na presença das minhas encostas
uma verticalidade suave que me escava o ventre
a espinha nas minhas costas que me eleva os peitos
colina alta no dorsal arquipélago que me menstrua
costelas de granito que se erguem entre ilhas
as quilhas
E de cada vez que me cruza
o cruzador encontra
para a constituição do arquipélago
as águas interiores
dos meus infinitos amores

A Rosa dos meus ventos
novamente traçada
faz-me rumar eternamente
desalinhada
demorada
no teu corpo molhada

21 de Nov de 2008

18 de Nov de 2008

uma certa afta

Uma afta afecta-me. Infecta-me a vida como uma bolha prestes a explodir no seio de um quotidiano. É apenas uma afta. Uma afectação de afta afinal. Uma anfetamina tomada para concentrar a coagulação textual dos neurónios: a condensação do sangue nas regiões mais criativas do cérebro, como uma chuva tropical. Em que hemisfério mental se torna a massa cinzenta luminosa? Em que plano de luz me deixo sempre afectar? Uma afta como uma jangada no mar da boca, piroga no oceano do palato, motim na língua da intrusão viral. Uma afta, virose textual. Uma torrente afectiva, efectivada no meu mais íntimo plano aftal.

17 de Nov de 2008

Vergílio, ainda há uma esplanada sobre o mar...

fui beber vodca com lima, gelada, no litoral de cascais. senti o sol na pele dos braços acesos. fumei um cigarro enrolado em si pelas ondas cristalinas. no mar um cone de luz alumiou.

13 de Nov de 2008

vou correr até ti

sou marinheiro, tenho uma espada de água para cortar a espuma das ondas, as nuvens. sou aviador. sou explorador e veterinário de feras, sei anestesiar com xarope de estrelas. tenho uma seringa para fazer rodopiar e deixar tontos os oceanos e a lua sempre cheia. vou voar, vou navegar, vou correr para te apertar os sapatos. para te apertar os sapatos, vou correr até ti.

12 de Nov de 2008

O pedido demorou demasiado tempo

O seu pedido demorou demasiado tempo a ser concluído. Trata-se apenas de um erro temporário devido a uma sobrecarga de tráfego na relação ou à utilização excessiva do desejo.

4 de Nov de 2008

poesia visual

poesia visual, sim, concreta, visual e tipográfica, ideográfica, arriscaria quase dizer ontográfica... vale a pena espreitar mais uma singular iniciativa «Porosidade Etérea» (não, não digo isto por ter lá dois poetogramas meus..., a sério!).
aqui

no mar de Portugal


se Achab vivesse hoje teria um navio como este... e a baleia? outro homem.

24 de Out de 2008

SSR

ontem quis falar-Lhe pessoalmente, para erradicar as dúvidas que sempre ficam no ar, que persistem no vácuo pela ausência de olhares, de expressões, a falta de provas vivas de cada vez engolidas pelo sugadouro da invisibilidade desse Ser Sem Rosto

14 de Out de 2008

as feras (1)

As benfeitoras das minhas linhas, dos meus eixos desalinhados hora após hora pelos cordões dos meus sapatos, são psicólogas de ocasião, amigas sem opinião que, invisíveis, agem dentro das minhas ancas, ecoando e ressoando no córtex das amígdalas o medo encefálico.
As malfeitoras dos meus usos alinham-me por fora para nunca acertarem no desconcerto dos meus órgãos, na utopia dos meus membros; são ursas, feras, tigresas que não matam: debicam quais hienas a porcelana dos meus dentes.
As acusadoras das minhas práticas não vêem o que digo, não ouvem o que penso, não sentem o que arremato distante e frio no calor íntimo dos fluxos linfáticos.
Malfeitoras são as benfeitoras que acusam... bem.

13 de Out de 2008

Uma Exposição (quase) Ideal


Se tivesse de imaginar um espaço onde se encontrassem reunidas obras de escritores como Henri Michaux, Pierre Klossowski e Ghérasim Luca, encontrar-me-ia desde logo desconcertado...
Talvez, pensaria, se reunissem na obra de um outro autor, mas qual (não, Gilles Deleuze não está lá)?
E se, ainda por cima, tivesse de incluir os nomes de Rimbaud, Verlaine e Baudelaire... o que dizer, onde situá-los?
Na obra de Marcel Proust?
Mas e Apollinaire, Jacques Prévert ou até José de Almada Negreiros e Ana Hatherly?
Bom... estão todos em Belém e fui vê-los: um acontecimento, uma festa...
Ficam aqui algumas imagens da minha exposição (quase) ideal.

9 de Out de 2008

llima na Revista da Gulbenkian


para fazer download da revista, clicar aqui

Estética da Ecceidade


Para saber mais sobre o livro e o autor..... clicar aqui:

7 de Out de 2008

para ler em voz alta, verticalmente

2 de Out de 2008

como nascem reis nos desertos

sou o rei Masteirão
que respira e reina sob as águas,
as águas dos meus vícios,
o fruto dos meus ofícios,
sou rei sem trono nem reinado
pária sem pátria que fatiou,
à medida dos seus súbditos,
o corpo, o prepúcio.
em tempos um cavaleiro
apelidado Malavaleiro
viu-me por inteiro e disse:
– eu vi. reinarás sob esta terra de água, rei sem trono, sem reinado,
reinarás fragmentado, disseminado,
sobre a saliva das sereias
serás rei, eu-vi, sob o teu véu, Levi.

a insensível pele queimada

estou a sentir muito
com muita força
estou a sentir tanto que
até ofuscaria os olhos
se os olhos vissem
a insensível pele queimada

estou distorcido no ouvido
estou desarticulado na mão
estou queimado na pele
na insensível pele queimada

estou a sentir mais
mais que o pensamento
pode conceber
estou a sentir tanto
que a água não se atreve a correr
fica quieta a água
de afogada
na insensível pele queimada

estou a sentir ainda
cada vez menos mas ainda
que é sempre muito
mais que os olhos conseguem ver
e que a pele
a insensível pele
consegue receber
queimada

29 de Set de 2008

uma ave em cima de uma árvore

uma andorinha em cima de uma oliveira

um pombo em cima de um pinheiro

manso

um papagaio em cima de uma palmeira

24 de Set de 2008

Portugal perdido no ar

Ao Álvaro


Sozinho, no check in deserto, nesta manhã de Verão,
Olho pró lado da pista, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um avião aterrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a lista vã do seu fumo.
Vem aterrando, e a manhã aterra com ele, e na pista,
Aqui, acolá, acorda a vida aérea,
Erguem-se palas, avançam carros,
Surgem avionetas pequenas de trás dos aviões que estão no aeroporto.
Há uma surda brisa.
Mas a minh'alma está com o que vejo menos,
Com o 747 que desce,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido aéreo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o 747, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um painel de controlo começa a piscar, lentamente.

Os 747's que sobrevoam de manhã a torre de controlo
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de hangares afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros aeroportos.
Todo o aterrar, todo o descolar de avião,
É - sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui…

Ah, toda a pista é uma saudade de asfalto!
E quando o avião descola da pista
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre a pista e o avião,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Um ruído de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora antes de mim,
Duma pista; se não deixei, avião ao sol
Oblíquo da madrugada
Uma outra espécie de aeroporto?
Quem sabe se não deixei, antes da hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se em mim,
Uma grande pista cheia de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Dum enorme país comercial, crescido, apoplético,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?

23 de Set de 2008

Trata-se de Intuição

Aqui agenciam-se forças, as palavras não são já decorrentes de um exercício de memória ou de respigação de leituras prévias e conhecimentos acumulados. Trata-se de intuição, da carne das palavras, no sentido esquizofrénico do termo, trata-se do sentido profundo de cada expressão, trata-se, enfim, da vitalidade do termo expresso, do contínuo que o agita, da corrente que o perpassa... amo-te.

21 de Set de 2008

uma ave em cima de uma árvore

17 de Set de 2008

ser — texto = 0

a verdadeira vida está na literatura.
quando as vidas passam, as ciências, os saberes, fica o texto e sempre texto.
mais negro que o alcatrão são os olhos do que faz escrever.
de um negro azul.
é a verdura desse olhar negro-azul que faz rizoma, proliferação.
sabes, eu nem me lembrava do que te ia dizer.
o outro é que ia. iria se soubesse dizer-to.
agora estou num salão do livro.
os stands piscam-me o olho.
em busca da minha literatura encontro a do outro.
versar: em agosto, setembro.
la peur est la meilleure partie de moi (não é Nuno Júdice?).
medo de dizer a escuridão de um olhar translúcido.
eis a escrita da minha vida.

um livro e um animal

de olhos intensos e gestos ágeis
uma fera para me acalmar
uma fera é necessária precisamente para me acalmar
pela manhã
dia após dia um livro e um animal
para uma vida mais normal
qual deles é livre qual deles é livro?
qual deles é ser qual deles é texto?
o animal, a fera, eu...

13 de Set de 2008

My Own Personal LHC

Vou acelerar as minhas partículas, colidir-me, dividir-me para minha melhor diferenciação.
Letra a letra nos poros, portos sem abrigo, abertos ao mar do meu universo desfeito numa explosão.
Os meus túneis circulares nunca encerarão o meu desejo de intrusão.
Um dia será visto, outro não.
Afinal, nunca irei mais fundo do que a cova da minha mão...

9 de Set de 2008

alfabeto-legenda para um quadro inesquecível (ainda aqui)

13 de Ago de 2008

Pasolini, Artaud, Lars von Trier, Duns Scot

Cruz, carne, mulher, tímpanos e gritos, túmulo onde nasce o movimento do corpo, as pernas que se acocoram, o grito novamente...

12 de Ago de 2008

se não escrevo é porque penso

Se não te escrevo é porque penso em ti. Sou muito intermitente nas minhas formas de expressão, muito irregular e impulsivo, por vezes até compulsivo. E é verdade que tenho pensado. Pensar é diferente de escrever, porque quando se escreve não se pensa com a mente, a razão ou a imaginação: não se reflecte, apenas se flecte. Sim, com as mãos, com os dedos: é a força que circula pelos nervos dos músculos dos braços até aos nervos mais finos do cérebro quem inflecte. É com ela que te escrevo quando não penso em ti.

10 de Ago de 2008

como amar uma pedra

um aperto uma perda
uma pedra sem sapato
sem rumo nem destino
uma pedra sem salto
que não atrai nem fere
pedra ausente
não é filosofal
não é maçónica
não faz muro
não faz furo
pedra que não é dura
nem nela se lava no rio com água
pedra que não alicerça
que não edifica
pedra que não sacrifica
e que não marca
não é grafada nem afiada
não é sílex
nem granito
não é xisto nem é argila
não é barroco da beira
não enche o peito
não cerra o punho à força da mão
pedra de terra, de água e de vento
pedra que enterra a cada momento
a vida à pedrada de arrependimento
pedra que aprende e nunca prende
pedra pendente, calhau cadente
à beira dos olhos como de uma estrada
gravilha no rosto
gravada nas costas
amarrada à fisga das minhas encostas
pedra lavrada lava enegrecida
pedra de esponja que me suga a vida
pedra linda rejuvenescida
pedra entre a erva que eu respigo
que eu colho e tolho
e por fim recolho
e torno a tolhar para arregaçar
a mão que treme ao empunhar
a pedra que nunca hei-de atirar
a esta lagoa que a virá saltar
saltar, pular e deslizar
pedra de amar
até ao longe, o mar
re-volto

7 de Ago de 2008

nunca tinha visto nada assim

1 de Ago de 2008

A F I R M A R

Adesão incondicional. aceitação absoluta. alinhamento. sim. alinhamento agenciado. nada planeado. quase inspirado. adesão. para uma composição sem fim. adesão incondicional a ti.

multiplicidade

se soubesses
ah se soubesses
como o somatório de beijos ao longo de um dia depende do sabor de cada par de lábios beijados
antes sabia
eu sabia que era para compor um ritornelo, uma pequena frase
um conjunto de lábios compostos, compósitos, discretos, dispersos, unidos apenas pelo dia
antes sabia que era eu quem os unia
era eu quem os beijava
pouco importava como, quantas vezes
de qualquer forma esquecer-me-ia depressa
com o findar do dia
ah se soubesses o sabor
não era dos beijos nem dos lábios
era do conjunto, da composição de pares de lábios beijados num único dia
como uma frase feita de beijos
uma frase numa língua estranha que descobria dia a pós dia, série após série de pares de lábios beijados
quanto mais diferenciados, quanto mais heterogénea era a multiplicidade
e mais singular era o sabor ao final do dia
antes sabia:
sabia seriar os lábios para nunca os cerrar

24 de Jul de 2008

camadas, paisagens simples

Paisagens
São camadas que se apresentam aos meus olhos
Que a primeira é a do vazio.
Do espaço de matéria compacta que dista da carne dos meus olhos até à matéria do ferro.
É essa a matéria da primeira camada,
de ferro,
a grade.
Depois são os arbustos, também eles ligados pelo espaço-matéria-cheio,
arbustos de auto-estrada mas em casa,
com flores brancas e laranja
Depois mais ligação de matéria cheia até
à verde rede material que dista via matéria da próxima camada apenas pela ligação de matéria cheia
Matéria cheia novamente interrompida pela madeira clorofílica da palmeira.
Matéria-(novamente)-cheia até ao esvaziamento total do alcatrão-buraco-estrada-camada-negra.
A ligação prossegue via matéria-cheia em cima
e matéria-terra em baixo, até
ao mar.
Matéria-água-buraco-plano-azul interrupção longínqua de matéria-cheia em matéria opaca-translúcida do espaço água: ligação contígua / espaços híbridos.
Camadas simples.

22 de Jul de 2008

a haver voto útil...

será certamente aqui: VOTAR

todo o dia é

os meus sentimentos, parabéns, boa morte
nas escadas, no pátio, na vida
então, obrigado, sim, obrigado
na sala, à espera, com cidra
cada dia letal é dia natal
a vida e a morte acontecem assim

18 de Jul de 2008

Arroz com Pardais

Hoje não foste ao jardim.
Havia festa à beira-piscina. Azul. Estavas num fato azul de ganga de ir ao banho.
Eras eu. Mais novo. Camelo, Tigre, Criança. Assim Falava Malavaleiro.
De parte incerta, mas cavaleiro por inteiro.
No sonho da água reflectiam-se pavões iranianos, mefistofélicos nos ténis Prada.
Trazia óculos escuros, eras ela. Mas ela não.
Vi-lhe os olhos mais uma vez.
Os olhos são sempre virtualidades in-vistas.
Esperam. Podem vir a ser vistos. Não são invisíveis, não, de todo.
Mas também não são visíveis, pois não se vêem acaso não olhem no mesmo movimento.
In-vistos. Os olhos só podem ser vistos se olharem. Nunca se vêem os olhos. Nunca.
Os olhos nunca são os mesmos. Apenas se vê o olhar cambiante.
Óculos. Vidro. Água. Piscina de água encarnada.
Hoje não fomos ao jardim. Estiveram na festa à beira piscina, os teus olhos e a água.
piano, animais e vozes
densa matéria do teu corpo que em retalhos nos forma
dia após dia
Por que não fui eu ter contigo?
noites e noites a fio. Por que não sei como ir ao jardim?
Atravessar o deserto do camelo. Carregar e calar. Consentir e carregar, calado e carregado.
Tansportar um Malvaleiro às costas e julgar que por ser Tigre sou livre de ir para onde quero.
Errar errante num erro inconfesso, só vou para onde me levas.
Até saber rir. Quando souber criança rir como sou agora tu és linda à beira da água no jardim.
Ainda bem que te escrevi para mim.
Assim Falou Malavaleiro rio riso de parte inteira corrente alada de água cascata amarela de juba em ti. ri

8 de Jul de 2008

HÁ NOVA ONTOGRAFIA (aqui)

ou, mais precisamente: une nouvelle ontographie, ici:
http://ontografia.blogspot.com/

no lago dos signos

No lago dos signos, os seres textuados não têm sexo. Têm sinais sonoros, pigmentos gustativos, portos em poros de abrigo e mensagens sedativas. No lago dos signos, os seres são textuados. não têm nexo. Têm pontos cardeais que lhes balizam os ventos. Têm espanta-espíritos e guarda-vidas que os não deixam afundar, mergulhar, sufocar na textualidade do ser. No lago dos signos espero por te ver.

3 de Jul de 2008

these days

A traduzir um livro sobre Michel Foucault e a ler um livro sobre o pensamento de Gilles Deleuze.
Os autores? Paul Veyne e José Gil.
O resultado? A construção de um terceiro texto...
(à suivre)

30 de Jun de 2008

NOVIDADES NA ESTÉTICA DA ECCEIDADE


aqui: http://ecceidade.blogspot.com

25 de Jun de 2008

Orgia Literária





Sobre os livros O Tempo e o Outro – do filósofo Emmanuel Levinas – e O Retrato de Dorian Gray – de Oscar Wilde – monodias paralelas encenam-se aqui: http://orgialiteraria.com

23 de Jun de 2008

Le Pull Marine

Isabelle Adjani et Serge Gainsbourg

20 de Jun de 2008

piscine


no fundo da piscina um pullover azul marinho sobre a tua pele ainda branca. olhos abertos sem lágrimas sem sal sem cloro clamo e choro. como se fosse verdade. como se fosse a nado até ao fundo da tua superfície líquida. para nunca mais voltar.

Sodome et Gomorrhe

Hier le narrateur a découvert qu'Albertine connaissait de très près la fille de Vinteuil... et son amie saphique.
Ontem o narrador descobriu que Albertina conhecia de muito perto a filha de Vinteuil.. e a sua sáfica amiga.
Mais umas 300 páginas e inicia-se La Prisonnière.....

18 de Jun de 2008

Portugal Perdido no Mar

Há quanto tempo, Portugal, há quanto vivemos separados! Eu sou um poeta português que ama a sua pátria. Eu tenho a idolatria da minha profissão e peso-a. Esqueço-me de tudo, por isso escrevo. NÃO TENHO pressa: não a têm o sol e a lua. Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de verão, olho pró lado da barra, olho prò indefinido, olho e contenta-me ver a sereia de plástico esfacelar-se no rubro sal das marés portuguesas seios tolhidos no sangue de um lápis de cor na boca a fúria das viagens: europas américas arábias maré estreitos onde é possível morrer novos países novas profundidades delirantes visões por entre o coral. Aqui, acolá, acorda a vida marítima. Eu não tenho culpa nenhuma de ser português, mas sinto a força para não ter, como vós outros, a cobardia de deixar apodrecer a pátria. Em que geometria é que a parte excede o todo? Em que biologia é que o volume dos órgãos tem mais vida que o corpo? Corpo envolto por uma linha azul, espessa areia fulva em toda a extensão da folha de papel. Meu corpo é terra de Portugal e morto é ilha no alto mar. Sucata de alma vendida pelo peso do corpo, se algum guindaste te eleva é para te despejar... Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar. Nada que nada sempre a nadar livro perdido no alto mar.

[Nota: este texto é uma ontografia. Não foi escrito por nenhum autor, antes foi composto por ecceidade. É constituído por extractos, extracções, fatias de carne arrancadas à vianda dos textos de AL'Berto, ÁLvaro de Campos, ALmada-Negreiros, ALberto Caeiro. É assim o Ser-Texto de PortugAL]

17 de Jun de 2008

indizível

há novo poema no paralelo....

16 de Jun de 2008

Pela carretera

Entre Burgos e Valladolid, pareceu-me ver um microfone pendurado num poste à beira da autovia (ou seria uma autopista?). Imaginei logo a possibilidade de uma instalação, a ser apresentada em Serralves ou na Cordoaria, numa sala escura, resguardada por umas cortinas negras e pesadas e... claro, patrocinada pelo BES. Sim. Seria uma instalação sonora, intitulada: Entre Burgos e Valladolid, topologias sonoras para invisuais. E a coisa, a instalação, consistiria numa gravação contínua a ser emitida – apenas sons – durante 72 horas. Sons de automóveis a passar, camiões, motos, caravanas, etc... Ausência total e momentânea de ruído, súbito barulho do vento a soprar em direcções diversas, a chuva. Cantar de passarinhos, grilos. Claro, o texto, redigido por um conceituado crítico de arte, acompanhado por um nome sonante na curadoria, daria uma ênfase contemporânea à minha instalação sonora. Afinal, seria fácil dissertar em torno de uma cartografia sonora invisível e intangível mas audível. E como é belo ver de olhos fechados, a beleza escondida do olhar que só sabe ouvir, etc., etc.
Enfim.
Serve este longo "post" para derivar em torno do absurdo de certa arte contemporânea que põe em prática o que bastaria ser concebido: como todas as mais belas e puras fantasias, sejam elas sexuais ou guerreiras.
Bem hajam viajantes das estradas que, para Paris, preferem cruzar as carreteras bascas aos aviões que matam as deslocações.

4 de Jun de 2008

VIAGENS TOPOLÓGICAS / VOYAGES TOPOLOGIQUES

Toda a viagem se faz sentado. Em cima de um camelo, no banco de um jipe, no assento de um avião, encostado a um contentor a bordo de um cargueiro, no camarote de um paquete, na mala de um carro, num vagão de comboio, numa poltrona de jacto ou de hidroavião, no cockpit de um voo orbital, na cabina de um helicóptero, apertado entre os cintos de um planador, sobre um par de patins em linha ou em quatro, no equilíbrio de um skate, de uma prancha de surf, na proa de um veleiro ou na popa de um iate, sentado em cima dos pés, dos ténis, apoiado no pescoço entre os ombros. Nunca caminhamos, nunca nos movemos senão por dentro. Mesmo quando o corpo circula e se desloca no espaço é o tempo do movimento interior que, topologicamente, processa mais ou menos velocidades: agencia distâncias maiores ou menores. Uma bússola interna traça os azimutes e só o pensamento (memória+sensação+emoção+acontecimento) viaja, sempre.
Une boussole intérieure, comme celle de Proust, de Ruskin, des pigeonts voyageurs ou des oiseaux migrateurs, trace les azimuts et seule la pensée (mémoire+sensation+émotion+évènement) voyage, encore.

De olhos fechados a ver o Sol

3 de Jun de 2008

3/JUN/2008: SOL / SOLEIL

30 de Mai de 2008

As inconfessas / Les inavouées

Alguém (José Gil) me disse que alguém lhe disse (Gilles Deleuze): «É raro ter uma ideia!»
Quelqu'un m'a dit (José Gil) que quelqu'un lui a dit (Gilles Deleuze): «Avoir une idée est une chose très rare!»